Em um país onde as cicatrizes da história insistem em ser negadas, precisamos erguer nossas vozes com firmeza e clareza. Neste 31 de março de 2025, quando completam-se 61 anos do golpe militar de 1964, assistimos novamente à tentativa perversa de reescrever nossa história nacional, transformando crimes contra a humanidade em “feitos heroicos” e opressão sistemática em “ordem necessária”.
O que ocorreu em 1964 não tem outro nome possível: foi um golpe que rasgou a Constituição, destituiu um presidente legitimamente eleito e implantou um regime que, por 21 anos, sufocou liberdades e direitos fundamentais. Os números não mentem: 434 pessoas assassinadas por motivações políticas, 20 mil cidadãos submetidos à tortura, 4.841 representantes políticos eleitos pelo povo destituídos arbitrariamente de seus cargos.
Estas não são estatísticas frias – são vidas humanas destroçadas, famílias devastadas, sonhos interrompidos à força. Cada número representa uma história pessoal de dor que jamais deveria ser objeto de celebração por qualquer autoridade que tenha jurado defender a Constituição de 1988, documento que nasceu justamente para sepultar o autoritarismo.
As tentativas recentes de grupos políticos nostálgicos de recontextualizar este período sombrio como uma “revolução salvadora” representam não apenas uma afronta à memória das vítimas, mas um perigoso projeto de erosão dos valores democráticos duramente conquistados. A democracia brasileira não foi uma dádiva – foi uma conquista popular regada com sangue, suor e lágrimas de milhares de brasileiros corajosos.
O argumento frequentemente utilizado de que “era outro tempo” não se sustenta. Crimes contra a dignidade humana são crimes em qualquer época. Tortura, desaparecimentos forçados e execuções sumárias nunca foram nem serão instrumentos legítimos de governança. A tentativa de relativizar estas atrocidades revela um profundo desprezo pelos fundamentos éticos mais básicos que sustentam nossa sociedade.
Preocupa-nos profundamente a instrumentalização política deste capítulo traumático de nossa história. As Forças Armadas brasileiras, instituições que hoje servem à democracia, não merecem ter seu legado atual manchado pela glorificação de um período que a própria sociedade brasileira, incluindo o Poder Judiciário, já condenou inequivocamente.
Não podemos permitir que o revisionismo histórico prospere. Permitir que se celebre o golpe de 1964 abre as portas para que outros ataques à democracia possam ser normalizados no futuro. A história, quando negligenciada ou distorcida, tende a se repetir – frequentemente de formas ainda mais trágicas.
Nossa indignação não é apenas retrospectiva. Ela nasce da preocupação com o presente e o futuro da democracia brasileira. Ao rememorar criticamente os horrores do passado autoritário, fortalecemos os anticorpos democráticos da sociedade contra novas tentativas de ruptura institucional.
Convidamos todos os cidadãos comprometidos com a democracia – independentemente de posições políticas ou partidárias – a se unirem em defesa da verdade histórica e dos valores republicanos. O Brasil que queremos construir não pode emergir da amnésia coletiva ou da glorificação de um passado sombrio.
Em 31 de março, não há nada a celebrar. Há, sim, muito a refletir, muito a aprender e muito a reconstruir. A verdadeira homenagem que podemos prestar às vítimas da ditadura é fortalecer, diariamente, os pilares da democracia que elas sonharam ver edificada em nosso país.
Para que nunca mais aconteça. Para que nunca esqueçamos.