Política e Resenha

O Fim de uma Aliança Conturbada: Cidadania e PSDB Seguem Caminhos Separados

 

 

 

A decisão do Diretório Nacional do Cidadania de encerrar a federação com o PSDB, confirmada neste domingo (17), é um marco significativo na trajetória do partido. Embora a ruptura só tenha efeito prático em abril de 2026, conforme determina a legislação eleitoral, o anúncio reflete um desejo claro de romper com uma parceria que, desde sua formação em 2022, trouxe mais desafios do que benefícios. O Cidadania, ao optar por esse caminho, sinaliza que prioriza sua identidade e sobrevivência política acima de uma convivência forçada e desgastante com o PSDB.

Uma Convivência Marcada por Tensões

Não é segredo que a federação enfrentou dificuldades desde o início. Filiados do Cidadania, em diferentes estados, relataram problemas de convivência com membros do PSDB, apontando uma falta de harmonia que comprometeu a parceria. Essa tensão não foi apenas uma questão de desentendimentos interpessoais, mas de incompatibilidades mais profundas, que afetaram a essência do projeto político conjunto. A federação, que deveria ser uma união estratégica para ampliar a influência de ambos os partidos, acabou se tornando um fardo, especialmente para o Cidadania.

Perdas Políticas: Um Preço Alto a Pagar

Os números falam por si. Durante os pouco mais de dois anos de aliança, o Cidadania viu sua representação política encolher. A redução no número de deputados estaduais e federais, vereadores e prefeitos é um indicativo alarmante de que a federação não apenas falhou em fortalecer o partido, mas contribuiu para seu enfraquecimento. Em um cenário político onde a presença e a influência são fundamentais, essas perdas representam um retrocesso que o Cidadania não pode ignorar. A parceria, em vez de ser um trampolim para o crescimento, tornou-se uma âncora que puxou o partido para baixo.

A Voz da Liderança e o Resgate da Identidade

O presidente nacional do Cidadania, Comte Bittencourt, foi assertivo ao declarar que “a federação é passado” e que o partido deve “retomar o protagonismo de nossa identidade”. Suas palavras ecoam um sentimento crescente dentro da legenda: a necessidade de se desvencilhar de uma aliança que diluiu sua essência. Bittencourt acerta ao colocar a identidade partidária no centro da estratégia futura do Cidadania. Um partido que perde sua voz e sua capacidade de se distinguir no cenário político corre o risco de se tornar irrelevante, e o Cidadania parece determinado a evitar esse destino.

Resistência Interna e o Custo da Desunião

A federação nunca foi plenamente aceita dentro do Cidadania. Em 2022, sua aprovação se deu por uma margem mínima – apenas um voto de diferença –, o que já evidenciava a falta de consenso. Essa divisão interna teve consequências concretas, como a desfiliação do senador Alessandro Vieira, que optou por migrar para o MDB. A saída de uma figura de peso como Vieira não apenas reduziu a bancada do partido no Senado, mas também simbolizou o descontentamento de setores importantes do Cidadania com os rumos impostos pela aliança. Esse episódio é um lembrete de que forçar uma união sem respaldo interno pode custar caro.

Um Passo Adiante, Apesar do Atraso

A decisão de encerrar a federação, ainda que tardia devido às exigências legais, é um movimento positivo. O Cidadania demonstra que está disposto a corrigir o curso e a buscar um futuro independente, onde possa reconstruir sua força política. É lamentável que a legislação obrigue o partido a manter a parceria até 2026, mas o anúncio já serve como um divisor de águas, permitindo que o Cidadania comece a planejar seus próximos passos com autonomia.

Lições para o Futuro

Essa experiência deve servir de lição. Alianças políticas podem ser valiosas, mas precisam ser fundamentadas em afinidades programáticas e respeito mútuo. A federação com o PSDB parece ter carecido desses elementos, resultando em uma convivência difícil e em prejuízos concretos. Para o futuro, o Cidadania deve buscar parcerias que complementem sua visão e fortaleçam sua base, em vez de miná-la. A política é um jogo de estratégia, e o partido precisa jogar para vencer, não para sobreviver.

Conclusão: Um Novo Capítulo à Vista

O fim da federação com o PSDB, ainda que só se concretize em 2026, é uma decisão acertada e necessária. O Cidadania tem agora a chance de se reinventar, recuperar o terreno perdido e reafirmar sua relevância no cenário político brasileiro. A política nacional é um ambiente competitivo e em constante transformação, e partidos que não se adaptam ou que se perdem em alianças fracassadas correm o risco de desaparecer. Ao escolher seguir seu próprio caminho, o Cidadania mostra que está disposto a lutar por seu espaço e por sua voz. Que esse seja o início de uma nova fase de crescimento e protagonismo para o partido.

Padre Carlos