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(Padre Carlos)
Começaram os interrogatórios. O Supremo Tribunal Federal acende os refletores sobre um dos palcos mais tensos da vida política nacional desde a redemocratização. Não se trata apenas de ouvir testemunhas. Trata-se de escavar memórias, de confrontar versões, de buscar uma verdade que se oculta entre as entrelinhas de discursos fardados e a retórica de um poder que flertou perigosamente com a ruptura institucional.
O primeiro ato tem protagonistas conhecidos: o general Marco Antônio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, figura central nas engrenagens da caserna; o ministro Alexandre de Moraes, condutor de uma audiência que mais parecia uma aula prática sobre os limites da memória e da omissão; e, pairando como sombra omnipresente, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o catalisador de toda essa engrenagem.
O general foi chamado a esclarecer o que dissera antes à Polícia Federal e o que, agora, dizia ao Supremo. E aí, caro leitor, entramos no campo pantanoso da “lembrança seletiva”, esse mecanismo tão comum aos que orbitam os centros do poder. Ontem ele dissera que o almirante Garnier teria se colocado à disposição do presidente ante uma proposta — velada ou explícita — de ruptura institucional. Hoje, o mesmo general “não se lembrava”, ou, no máximo, interpretava de modo diferente o que ouvira.
A advertência do ministro Moraes foi contundente. Não se brinca com a verdade em um tribunal. Não se joga xadrez com a memória quando se está sob juramento. Diante da dubiedade, Moraes, como um inquisidor moderno, forçou o general à encruzilhada: ou falseou antes, ou falseia agora.
Mas não nos enganemos. O que se desenrola nos salões do Supremo não é apenas a apuração de um crime, é o exame de uma tentativa, ou desejo, de golpe — palavra que já não se diz mais com o mesmo rubor do passado, mas que ainda carrega o peso de tanques, censuras e cadáveres históricos.
Bolsonaro, Braga Netto, Heleno, Paulo Sérgio. Todos estavam lá, assistindo em silêncio. Alguns ao lado dos advogados. Bolsonaro, sozinho. Uma imagem que vale mais do que mil editoriais. O comandante que tentou comandar a quebra da ordem, agora observando os ecos do que foi, ou tentou ser, o dia seguinte ao 30 de outubro de 2022.
A narrativa é complexa, mas a gravidade é simples. Estamos diante da possibilidade de que, entre dezembro e janeiro, tenha havido no coração da República uma articulação, ainda que desajeitada, para subverter a vontade popular. O fato de generais se reunirem com o presidente derrotado para discutir estados de sítio, defesa ou GLOs não é trivial. É gravíssimo.
Mas também é revelador que parte do alto comando não tenha embarcado. Que tenha resistido. E que hoje, mesmo com a voz embargada ou a memória trêmula, venham ao Supremo testemunhar. Isso diz algo sobre os limites das Forças Armadas, que não são instituições de um homem só.
O julgamento está apenas começando. E não, não é apenas de Bolsonaro ou dos seus ministros. É o julgamento de uma era. De uma mentalidade. De um tempo em que a verdade foi vilipendiada, as instituições testadas e a democracia flertou com a sua própria sombra.
Como num grande romance de Dostoiévski, todos ali têm algo a esconder, algo a confessar. Mas a História não se escreve com o que se esconde. Ela se escreve com o que, enfim, vem à luz.




