Política e Resenha

ARTIGO – Tocando em Frente: uma canção que nos atravessa

 

(Padre Carlos)

Ando devagar porque já tive pressa… Eis uma frase que não se ouve, se vive. E foi assim, sem esperar nada, que me vi, de repente, atravessado por uma melodia que parecia brotar do centro da terra — ou da alma. “Tocando em Frente”, música de Almir Sater e Renato Teixeira, chegou a mim como chegam os grandes encontros da vida: sem aviso, mas com a força serena de quem já morava no meu silêncio.

Descobrir essa canção é como encontrar um velho amigo que você nunca conheceu — mas que de alguma forma sempre esteve com você. Quando os primeiros acordes ecoaram, eu ainda não sabia o que viria. Um dedilhado simples, um ritmo que não pressiona, uma cadência que convida a respirar junto. E então, como um sopro, veio a voz rouca, limpa, ancestral. Uma voz que não canta para impressionar, mas para lembrar.

Essa música não foi feita, foi dada. Almir contou, quase com incredulidade, que ela nasceu ali, entre a cozinha e a sala de jantar, enquanto ele dedilhava um violão com corda faltando e Renato rabiscava versos entre um chamado para a mesa e outro. Tinha tudo para ser esquecida, mas foi lembrada por Betânia, a sacerdotisa da canção, que ao ouvi-la pelo telefone, apenas disse: “Essa música é minha”. E estava certa. Era dela. É nossa.

A letra é um rosário de sabedorias pequenas — mas que contêm o mundo. Fala de levar um sorriso porque já se chorou demais, de aprender a viver sem entender tudo, de aceitar o tempo da vida. Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs. Parece simples, mas é alquimia pura: transformar o cotidiano em sagrado. Verso após verso, a canção ensina que viver é seguir — e seguir é tocar em frente, mesmo sem entender, mesmo doendo, mesmo cansado.

Essa simplicidade é uma arte rara. Lembro-me da poesia de Manoel de Barros, que fazia do barro um universo. Ou da paleta de Cândido Portinari, que pintava a dor e a dignidade do povo com as cores do sertão. “Tocando em Frente” está nesse panteão das manifestações artísticas brasileiras que fazem da humildade uma grandeza, do comum uma epifania.

Mas há algo mais: essa música é uma oração. Não no sentido religioso formal, mas como meditação vivida. Ela nos convida a olhar para dentro, a aceitar o que somos com ternura. Fala de espiritualidade sem nomear deuses. Fala de fé como quem fala de estrada: longa, áspera, bela, incontrolável. Há nela uma reverência silenciosa pela existência. É o tipo de música que se escuta de olhos fechados — e coração aberto.

Num país que pulsa samba, choro, baião, forró, rap e tantas linguagens de alma, “Tocando em Frente” encontrou seu lugar como um hino íntimo. Ela não levanta multidões em estádio, mas junta famílias ao redor da fogueira, amigos ao redor do violão, gente ao redor de si mesma. Sua força está no silêncio que deixa depois que termina.

E quando acaba, a gente não aplaude. A gente respira. Porque percebe que ela não passou pela gente. Foi a gente que passou por ela.

Tocar em frente, afinal, é mais do que seguir. É continuar humano. É seguir amando, errando, aprendendo — e, acima de tudo, sentindo. Porque, no fim, como bem diz a canção, cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz.

E isso, meus amigos, é mais do que letra. É revelação.