Política e Resenha

ARTIGO – Agora Inês é morta: O IBAMA, o petróleo e a soberania adiada

 

 

(Padre Carlos)

Quando decidi escrever artigos de opinião, compreendi que a verdade não se transmite — ela se alcança. Cada um a percebe por si, como quem parte numa jornada solitária rumo ao desconhecido. A verdade, como a morte, é pessoal e intransferível. E neste país de tantas máscaras e discursos ocos, é preciso coragem para dizer o óbvio: o Brasil foi impedido de explorar uma de suas maiores riquezas energéticas por um entrave ideológico travestido de consciência ambiental.

O IBAMA, que deveria ser um órgão técnico de Estado, agiu como se fosse um braço militante de um ambientalismo sectário, movido mais por alinhamentos ideológicos que por bom senso. A Margem Equatorial, região rica em petróleo e esperança, ficou refém de um debate irracional. A Petrobras, que há décadas representa a soberania energética do país, foi barrada não por falta de estudos, mas por excesso de militância.

E quando o Senado reagiu, desnudando o exagero e forçando uma mudança legislativa, o IBAMA correu para liberar a licença. Mas “agora Inês é morta”. A expressão portuguesa, que evoca o amor tardio do rei Pedro I, aplica-se com precisão ao drama nacional: a chance de projetar o Brasil ao protagonismo energético do século XXI foi atrasada, talvez comprometida, por um moralismo ambiental que, ao fim, traiu até os moderados.

A história de Inês de Castro, aquela bela dama galega assassinada em nome da moral e da política, revive-se aqui com tintas de petróleo. O rei D. Afonso IV, temendo ameaças à estabilidade do trono, permitiu o assassinato de Inês. No nosso caso, em nome de uma imagem internacional e da próxima COP-30, sacrificou-se a soberania. E assim como D. Pedro coroou rainha sua amada já morta, o governo agora tenta ressuscitar o licenciamento como se o tempo não houvesse passado.

Mas os danos já foram causados. Perdeu-se tempo, investimentos e confiança. Até mesmo os que defendiam uma exploração cautelosa se indignaram. A política ambiental brasileira perdeu o rumo ao deixar-se capturar por agendas que nem sempre refletem os interesses nacionais. Pior: ao sacrificar a racionalidade, o debate perdeu legitimidade.

E enquanto o Brasil assiste à Guiana e ao Suriname explorarem suas reservas com apoio de grandes potências, resta-nos a metáfora trágica: a floresta pode continuar de pé, mas o país se ajoelha diante de seus próprios fantasmas.