
(Padre Carlos)
É no mínimo irônico que os Estados Unidos da América, historicamente conhecidos por intervencionismos diplomáticos e manipulações políticas em diversas partes do mundo, tentem agora impor juízo de valor sobre as decisões soberanas do Supremo Tribunal Federal do Brasil. A fala recente do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, cogitando sanções contra o ministro Alexandre de Moraes e outros membros do STF, revela não apenas um desconhecimento grosseiro da realidade brasileira, mas também uma incoerência gritante de um governo que persegue adversários internos e bajula ditadores ao redor do mundo.
É importante pontuar: o Brasil é uma democracia sólida, com instituições que funcionam — e o STF, goste-se ou não de suas decisões, tem exercido um papel crucial na defesa da Constituição e no enfrentamento de ameaças golpistas. Quando os EUA se colocam como “polícia do mundo” e tentam intervir em processos jurídicos de outro país soberano, expõem o que há de mais perverso no imperialismo moderno.
Rubio, porta-voz de um setor radical do Partido Republicano, ignora convenientemente o histórico recente de seu próprio país. Sob Donald Trump, a América viveu episódios sombrios: incitação à invasão do Capitólio, perseguições a adversários políticos, retaliações econômicas a instituições de ensino como Harvard, e um clima de ódio fomentado por teorias conspiratórias e fake news. O mesmo governo que flerta com a extrema-direita mundial e afaga regimes autocráticos como os de Viktor Orbán, na Hungria, ou Mohammed Bin Salman, na Arábia Saudita, não tem autoridade moral para querer ensinar democracia a ninguém.
Chama a atenção o oportunismo: enquanto tenta intimidar ministros do Supremo brasileiro, Rubio e sua turma silenciam diante de violações grotescas dos direitos humanos em países aliados. Em vez de aplicar sanções a um juiz brasileiro que age dentro da legalidade, por que não sancionar líderes que mandam matar jornalistas, censuram mulheres e exterminam opositores?
A real motivação dessa ofensiva americana não está na defesa da liberdade, mas no incômodo com a autonomia crescente da política externa brasileira, que, sob uma diplomacia altiva, busca o multilateralismo e não se submete aos interesses de Washington. O Brasil não é colônia. Temos instituições, temos leis e temos voz própria.
Democracia não é um produto de exportação dos EUA. Ela se constrói com base na soberania, no respeito às instituições nacionais e no repúdio a qualquer forma de pressão externa. Que fique claro: o Supremo Tribunal Federal brasileiro não está à venda.




