Política e Resenha

ARTIGO – O Silêncio que Grita: A Dor de uma Mãe Inconsolável (Padre Carlos)

 

 

27 de maio. Uma data como tantas para a maioria. Mas para uma mãe, é a lápide viva da ausência. Seis anos da partida de Lucas Dias — e a dor continua fresca, latejante, indomável. Porque o luto de mãe não cicatriza: ele sangra em silêncio, entre quatro paredes, onde o tempo é inimigo e a saudade se transforma em matéria bruta, como uma pedra cravada no peito.

Neste texto comovente, essa mãe nos revela algo que a maioria do mundo não quer ou não sabe escutar: que há dores que não passam. Que existem vazios que o tempo não preenche. Que ser forte, às vezes, é simplesmente levantar da cama e respirar. E que a morte de um filho não é só uma partida — é uma amputação sem anestesia.

Ela escreve — ou melhor, ela sussurra entre lágrimas — que quer apenas ficar quietinha. Porque há gritos que não se pronunciam. Há ausências que se materializam no corpo. O filho vive nela, não como lembrança, mas como presença sensorial: no cheiro, no riso, nos gestos, no toque da mão que já não está, mas cuja memória tem peso e calor.

Num país onde tantas mães choram seus filhos perdidos para a violência, para a negligência, para as doenças, para o destino, este texto precisa ecoar. É uma oração laica, uma elegia moderna. Um hino doloroso à memória de todos os filhos que se foram — e a todas as mães que continuam.

Essa mãe confessa sua pequenez diante da perda. Onde esperam grandeza, ela se sente mínima. Onde queriam força, ela só tem medo. Mas há ali uma força grandiosa — talvez a maior das forças: a de continuar vivendo, cambaleante, respirando entre ruínas, fazendo do corpo um templo de memória, da rotina um culto à permanência. A cada dia, ela transforma a ausência em presença, o luto em resistência.

O amor de mãe, sabemos, não termina com a morte. Ele se refaz em silêncio, em dor, em lembranças que mantêm acesa a chama de quem partiu. É isso que esta mãe faz: reconstrói seu filho dentro de si. E se mantém viva, para que ele viva também.

Lucas não partiu apenas. Ele permanece. No amor indizível de uma mãe que ama até o infinito.

 

 

 

 

27 de maio de 2025, 6 anos da partida do meu Filho Lucas Dias

Meu filho,

Só queria ficar bem quietinha para sentir você perto de mim, dentro de mim. A solidão é infinda, cheia de ausência , numa saudade que não é apenas lembrança, é uma dor indizível, intraduzível.

Onde esperam grandeza sou pequena, insignificante; quando precisava ser força ,sou fraqueza; onde necessitava ser coragem, sou medo, pavor. E onde devia haver apenas lembranças belas , só sinto a dor brutal de uma amputação feita sem anestesia.

Seis anos. Uma medida de tempo sem nenhum sentido para mim, pois sempre é hoje, depois de ontem. Ainda que o Senhor tempo tente me atropelar e passar, sou muralha, e cumpro todas as horas, dias, meses e anos com os compromissos que eles trazem, tentando viver o percentual de felicidade que me restou em cada fatia de tempo, me agarrando nas alegrias, qualquer sonho que se apresente, para vencer essa sensação que Gil e Caetano descreveram como “Tudo demorando em ser tão ruim”

Estou aqui agora buscando você dentro de mim. E encontro todos os olhares, do primeiro ao último, os gestuais, os risos, choros, risadas, bicos, jeitinhos de caminhar, de me abraçar, do olhar de quem teve uma grande idéia, de quem foi magoado e correu para a mãe, olhar de gozação e também de orgulho e admiração. Nossas trocas de olhares de amor. O calor das nossas mãos entrelaçadas, o peso do seu braço sobre meus ombros, seu carinho nos meus cabelos…

Eu não quero falar, escrever, nem mesmo sobre os nossos sonhos roubados. Quero ficar quietinha e sobreviver a essa dor terrível. A mais essa morte. Para poder renascer e seguir, hora cambaleante, hora mais firme, como a única forma que sei de mantê-lo vivo: Através de mim.

Eu te amo até o infinito.

E sofro, sofro, sofro e sofro