Política e Resenha

ARTIGO – De volta ao passado: o espectro do Comando de Caça aos Comunistas (Padre Carlos)

 

 

Quando li a matéria sobre o grupo “Comando C4”, que agia com a frieza de um esquadrão da morte em pleno século XXI, não acreditei de imediato. Parecia uma daquelas notícias retiradas de arquivos empoeirados da ditadura militar brasileira. No entanto, o fato é contemporâneo, brutal e inquietante. Como num déjà-vu macabro, voltamos a um passado que insiste em assombrar nosso presente.

Durante os anos de chumbo da ditadura militar, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) espalhava o terror sob o pretexto de defender a pátria. Com apoio logístico e financeiro de empresários que se diziam “homens de bem”, e respaldo velado de setores do regime, perseguiam, torturavam e assassinavam opositores políticos. A tática era simples: rotular qualquer voz dissonante como “comunista”, tornando-a um alvo legitimado para a violência. O Estado brasileiro silenciava ou mesmo colaborava. Os jornais, em grande parte, se calavam. A sociedade, muitas vezes, aplaudia.

E agora, em 2025, lemos que um grupo autodenominado Comando C4 – Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos atuava com métodos semelhantes: espionagem, dossiês, execuções por encomenda, participação de militares da ativa e da reserva, e financiamento privado. Como se não bastasse, o grupo mantinha uma tabela de preços para assassinatos e fazia menção a autoridades do Judiciário e do Congresso. O mesmo discurso de “limpeza moral”, as mesmas justificativas patrióticas e os mesmos personagens: fazendeiros, militares e agentes ocultos do poder econômico.

A morte do advogado Roberto Zampieri em Cuiabá, alvejado com dez tiros, revelou muito mais que um crime comum. Mostrou a podridão de um sistema judicial corrompido até os ossos – com suspeitas de venda de sentenças no Tribunal de Justiça do Mato Grosso e até no Superior Tribunal de Justiça. É um escândalo que mistura pistoleiros, coronéis e toga. É a velha política do coronelismo, reeditada com armas modernas e códigos criptografados.

O que mais choca não é só a brutalidade, mas a naturalização da violência como instrumento de resolução de conflitos. Estamos diante de uma cultura autoritária que nunca foi plenamente desmontada. O Brasil nunca julgou seus torturadores, nunca reeducou suas forças armadas, nunca teve uma Comissão da Verdade com consequências jurídicas reais. A semente da impunidade frutificou em novas organizações criminosas disfarçadas de defensores da moral e dos bons costumes.

A ressurreição do discurso anticomunista, vazio de conteúdo e cheio de ódio, não é coincidência. Ele é funcional para elites que temem qualquer ameaça à sua hegemonia. E como sempre, há os que matam, os que mandam matar, e os que lucram com a morte.

O caso Zampieri é um alerta: estamos vivendo um tempo onde o fascismo não se esconde mais atrás de fardas, mas usa redes sociais, discursos populistas e promessas de “ordem” para justificar o autoritarismo. O Brasil precisa urgentemente de reformas estruturais, mas também de uma cultura de justiça, verdade e memória. Só assim impediremos que o passado continue sendo o roteiro trágico do nosso futuro.