Política e Resenha

Lula anuncia lançamento de programa com médicos especialistas 

 

 


(Padre Carlos)

O anúncio do presidente Lula sobre o novo programa de acesso a médicos especialistas no SUS, previsto para esta sexta-feira, não deve ser lido como mais uma promessa de palanque. Trata-se de uma reedição necessária e urgente de uma política que, mesmo tendo sido iniciada em 2024, ainda engatinha diante da cruel realidade de milhões de brasileiros que esperam meses para conseguir uma consulta com um cardiologista ou realizar uma tomografia. O drama da fila na saúde pública não é uma estatística, é um sofrimento cotidiano — e uma afronta à dignidade humana.

Lula, com sua conhecida retórica visceral, volta a insistir em uma ideia simples, mas poderosa: quem adoece tem pressa. Não basta o diagnóstico; é preciso que o caminho do atendimento completo — da consulta ao exame, do remédio ao retorno — seja curto e eficaz. Isso, no Brasil real, ainda é um privilégio de poucos. O programa, embora ainda embrionário, aponta para uma reestruturação do modelo de pactuação com estados e municípios, com meta clara: reduzir o tempo de espera e ampliar o acesso à saúde especializada.

O anúncio foi feito em Cachoeira dos Índios, no sertão da Paraíba, durante a entrega parcial do Ramal do Apodi, obra integrante da transposição do Rio São Francisco. É emblemático que esse compromisso com a saúde venha ladeado de ações estruturantes de abastecimento hídrico. Água e saúde são, para o povo nordestino, faces da mesma moeda da sobrevivência. Como pode alguém manter a saúde quando não tem nem água para beber?

Lula, ao retomar o “Caminho das Águas”, faz mais do que cortar fitas: ele reinscreve o Nordeste profundo no mapa das prioridades nacionais. A transposição, pensada desde o século XIX, ganhou corpo sob seu governo — e, goste-se ou não da figura política, trata-se da mais ambiciosa ação de infraestrutura hídrica desde a redemocratização. Com mais de 70 ações em andamento pelo Novo PAC, o governo tenta provar que sabe plantar obras com raízes no chão seco e colhê-las com dignidade social.

O gesto de falar aos pobres com o coração, como disse o próprio presidente, pode soar piegas para alguns, mas toca uma ferida antiga: o abandono histórico do Brasil interiorano. E aqui está o elo entre o estetoscópio do médico e o regador das águas do São Francisco: cuidar da saúde e garantir o direito à água são formas complementares de justiça social. São, também, promessas constitucionais que por décadas foram descumpridas.

Esse duplo anúncio — mais saúde e mais água — tem também valor simbólico. Revela um governo que tenta dialogar com urgências históricas e, ao mesmo tempo, responder à impaciência do agora. Mas o desafio está em transformar boas intenções em eficiência prática. Os gargalos da máquina pública, a má gestão local e os interesses paroquiais são pedras no caminho de qualquer projeto que pretenda mudar estruturalmente a vida das pessoas.

Que este novo programa de saúde e as obras hídricas não sejam apenas manchetes de uma sexta-feira. Que sejam, de fato, a abertura de caminhos — para a água e para o povo — onde antes só havia poeira, sede e espera.