Política e Resenha

ARTIGO – Greve dos Catadores de Café: Memória que Resiste, História que Ainda Grita

Por Padre Carlos

A Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) promove o evento “Imagens da Luta: Cinema e Fotografia do Trabalho” em memória dos 45 anos da greve dos catadores de café. Pode parecer, para alguns, apenas mais uma programação acadêmica. Mas, para quem entende o valor da memória — é um ato de resistência. De coragem. De honra. Essa greve, ocorrida no final da década de 70, não foi apenas uma paralisação por melhores salários. Foi um grito coletivo de trabalhadores invisibilizados, explorados, que ousaram levantar a voz num tempo em que falar já era arriscar a própria vida.

Eram homens e mulheres que suavam sob o sol, colhendo riqueza para outros, e recebendo migalhas como pagamento. Resgatar essa história é mais do que um ato simbólico. É um compromisso com a verdade. É lembrar que, enquanto alguns falam de meritocracia, outros carregaram sacos de café nas costas sem sequer ter onde sentar para comer. É lembrar que o trabalho rural, especialmente o dos catadores, ainda hoje enfrenta exploração, informalidade, e ausência do Estado.

A universidade, nesse caso, cumpre seu papel: pensar, refletir, provocar. Mas seria um erro deixar esse debate restrito às salas de aula ou aos muros acadêmicos. Essa memória precisa ecoar nas escolas, nas rodas de conversa, nos espaços políticos. Porque a luta por dignidade no campo ainda não acabou — ela só mudou de roupa.

Falar da greve dos catadores é, também, falar de agora. Do presente que ainda carrega os ecos de um passado que insistimos em esquecer.