(Padre Carlos)
Eh… As perdas têm esse poder estranho e silencioso de reunir o que a vida, por distração ou orgulho, separou. A morte, quando chega, não pede licença. E ao entrar, ela não grita — ela ensina. Ensina sem aula. Só chega. E pronto.
Foi assim quando perdemos meu pai. Na sala, em torno do corpo já quieto, os filhos se olharam como se vissem um ao outro pela primeira vez em anos. Sem as queixas, sem as disputas. Sem o peso das palavras atravessadas no tempo. Era como se, naquele instante, a alma se lembrasse: o que importa é o amor. Só isso.
Mas — e aqui mora o que fere — não havia mais tempo pra consertar nada.
A morte relativiza tudo. Aquele desentendimento de anos? Pequeno. Aquela mágoa que virou muro? Tão frágil agora. E a voz que não ouvimos mais… essa sim, grita no silêncio.
E foi ali, no meio daquele luto partilhado, que entendi: a vida existe para isso. Para nos acertarmos. Para dizer “eu errei”. Para escutar o que antes não cabia no nosso orgulho. Para pedir perdão e também aceitá-lo. Para deixar cair a espada e abrir os braços.
A vida é esse intervalo breve entre dois silêncios. E nesse intervalo, o mais bonito que podemos fazer é nos acertar com os nossos afetos… e com os nossos desafetos também. Porque os desafetos, às vezes, são afetos com a roupa da mágoa vestida há muito tempo.
É difícil? É. Mas viver é para os que ousam desarmar-se.
Tem gente que prefere segurar a dor como troféu. Guardar a ofensa como escudo. Mas, meu Deus, que peso inútil! Enquanto isso, o tempo escorre, os dias vão se perdendo, e a alma vai se endurecendo.
Mas há quem escolha o contrário. Que liga, que escreve, que se desculpa, que chora. Que ouve. Que baixa a guarda. Que abraça mesmo tremendo. Gente que sabe que a vida é muito mais do que estar certo — é estar perto.
Eu quero ser desse tipo. E vou ser. Porque é isso que acredito.
E você?
Talvez hoje seja o dia certo para ligar. Para dizer que sente falta. Para ouvir. Para se perdoar. Porque amanhã… amanhã pode ser tarde.
E no fim, tudo o que vamos desejar é ter tentado antes que o tempo virasse ausência.





