
(Padre Carlos)
A recente provocação do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, feita com cinismo pelas redes sociais diretamente de Dallas, não é apenas uma bravata. É um gesto calculado, ousado e, sobretudo, perigoso. Um desafio direto ao Estado de Direito, às instituições brasileiras e, por consequência, ao povo brasileiro.
Ao insinuar que só responderia a uma carta rogatória ou outro meio legal vindo dos Estados Unidos, Eduardo não se limita a zombar do Supremo Tribunal Federal. Ele debocha da Constituição, desdenha da soberania nacional e escarnece do pacto democrático que nos rege desde a redemocratização. O filho do ex-presidente parece querer viver sob as regras de um Estado paralelo, onde não há prestação de contas, apenas a conveniência do exílio autoimposto financiado por sua própria família — que, diga-se, vive e atua em território nacional, sob as leis brasileiras.
Não estamos falando de um político qualquer. Trata-se de um dos principais articuladores da extrema direita brasileira, um personagem que, ao lado de outros aliados, esteve na linha de frente do esforço de desestabilização institucional que culminou nas tristes cenas do 8 de janeiro. Eduardo, ao desafiar um ministro da Suprema Corte que justamente impediu que o Brasil fosse tragado por um golpe de Estado, não atinge apenas Alexandre de Moraes. Atinge a espinha dorsal da democracia brasileira.
Essa afronta, feita com o respaldo do anonimato diplomático de um país estrangeiro, não é só covarde — é criminosa. Questionar, criticar ou até discordar das decisões do Supremo é legítimo. O que não é legítimo — e muito menos tolerável — é tentar transformar a fuga para o exterior em escudo contra a Justiça, enquanto, de forma descarada, continua influenciando o debate político nacional por meio de redes sociais inflamadas e discursos revisionistas.
Se Eduardo Bolsonaro acredita que está acima da lei, é dever do Estado brasileiro provar o contrário. E isso não é tarefa de um homem só, nem mesmo de um ministro do STF. Trata-se de uma missão que deve envolver o Congresso, o Judiciário e a sociedade civil. Permitir que um parlamentar desafie com tamanha arrogância as instituições é abrir caminho para que a democracia se transforme em farsa.
O Brasil não pode aceitar a normalização da impunidade travestida de “perseguição política”. A audácia do deputado licenciado não é um ataque ao ministro Alexandre de Moraes — é um ataque frontal ao Estado brasileiro e ao povo que deseja viver sob o império da lei. Se a Justiça brasileira quiser manter sua autoridade e seu prestígio, precisa agir com firmeza, responsabilidade e coragem.
Dallas não é abrigo de exilado político. É esconderijo de quem teme a Justiça e tenta manter, de longe, a chama acesa de um projeto autoritário fracassado. E isso, o Brasil democrático, simplesmente não pode tolerar.




