Política e Resenha

Título: Quando a Canção Abre a Caixa de Pandora

 

Por Padre Carlos

Hoje, vagando sem rumo pelo YouTube, me deparei com um vídeo de música dos anos 1980. Um clique distraído. Uma melodia familiar. E, sem que eu percebesse, havia aberto uma caixa de Pandora. Mas não daquelas que soltam monstros ou maldições — essa era feita de lembranças. Dolorosas, sim. Mas também doces, com gosto de juventude, com cheiro de papel velho e esperança.

A música — essa tecelã de tempo — puxou o fio invisível de uma memória que eu já não visitava fazia tempo. Voltaram os rostos. Os sorrisos meio tortos dos amigos do grupo de jovens, os abraços que hoje só existem nas entrelinhas do coração. Voltaram os gritos de protesto nas praças, as reuniões mal iluminadas, o sonho coletivo de um mundo justo. E voltaram os amores. Aqueles que a vida empurrou para o capítulo do “e se…”.

Não era assombro o que sentia. Era saudade. Uma saudade com dentes — que morde, que perfura, que sangra. Uma lança cravada no peito, fincada ali por tudo que não volta mais: a juventude que escorreu entre os dedos, os amigos que ficaram pelo caminho, as utopias que a realidade esmagou. Um luto mudo por tudo que foi e não é mais.

Quantos de nós não nos reconhecemos nesse sentimento agridoce? A juventude é um lugar de onde fomos expulsos sem aviso. Um dia você está lá, com os punhos cerrados e o coração em chamas, achando que vai mudar o mundo. No outro, acorda com um aperto no peito e percebe que o mundo mudou você. E aquele mocinho que você jurava ser no filme da própria vida… às vezes virou coadjuvante, às vezes virou um espectador.

Mas talvez o erro tenha sido acreditar que ser o herói era sobre vencer. Talvez ser o mocinho seja sobre resistir. Sobre manter acesa, mesmo que escondida, a chama daquilo que acreditamos quando tínhamos menos medo e mais coragem. A música me fez lembrar disso. Que ainda pulsa em mim o eco daqueles dias. Que as perdas não anulam os caminhos percorridos. E que, mesmo quando a utopia parece distante, ela nos ensinou a andar.

A caixa de Pandora, dizem os antigos, guardava no fundo uma última coisa: a esperança. E talvez seja essa a função da memória. Nos ferir, sim — mas também nos lembrar de que houve beleza, houve verdade, houve entrega. Que fomos inteiros. E que ainda podemos ser.

Hoje, aquela canção me fez chorar. Mas foi um choro bonito. Um choro que limpa, que reconcilia, que abraça. Porque lembrar é uma forma de continuar vivendo — e de honrar tudo aquilo que ainda pulsa, mesmo na ausência.

E assim sigo. Com a música na cabeça, a saudade no peito e a esperança, teimosa, escondida lá no fundo.