Política e Resenha

A Democracia no Banco dos Réus: O Espetáculo Patético de Quem Tentou Destruí-la

 

 

Por Padre Carlos

 

O Brasil assistiu nesta semana a um espetáculo que oscila entre o grotesco e o revelador. Jair Bolsonaro, sentado diante do ministro Alexandre de Moraes, tentou explicar o inexplicável: como suas palavras e ações sistemáticas contra a democracia brasileira eram apenas “desabafos” e “retórica”. A cena seria cômica se não fosse trágica para um país que ainda cicatriza as feridas de uma tentativa de golpe de Estado.

Quando confrontado com suas próprias declarações – nas quais acusava ministros do Supremo de receber propinas milionárias sem qualquer prova -, o ex-presidente recorreu ao argumento mais frágil e covarde possível: “era um desabafo, não era para ser gravado”. Como se a gravidade de suas mentiras diminuísse pelo fato de terem sido proferidas em ambiente supostamente privado. Como se líderes não fossem responsáveis por cada palavra que pronunciam, especialmente quando ocupam a mais alta magistratura da nação.

A audácia não para por aí. Bolsonaro ainda teve a desfaçatez de se vitimizar, alegando ter sido “tolhido” e “alvo de muita coisa” durante o processo eleitoral. Esquece-se convenientemente de que foi ele quem sistematicamente atacou as instituições democráticas, colocou em xeque a lisura do processo eleitoral sem apresentar uma única prova, e incentivou seus seguidores a questionarem a legitimidade das urnas eletrônicas – sistema reconhecido internacionalmente por sua segurança e eficiência.

É preciso que se diga com todas as letras: não houve perseguição política. Houve, sim, o cumprimento da lei e a defesa das instituições democráticas contra alguém que, ocupando a Presidência da República, usou seu cargo para solapar os pilares da democracia brasileira. As restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral não foram arbitrárias – foram a resposta institucional necessária diante de condutas que feriam os princípios básicos do Estado Democrático de Direito.

O ex-presidente parece não compreender – ou fingir não compreender – que democracia não é sinônimo de anarquia. Não é permitido, nem a presidentes, mentir sistematicamente sobre o processo eleitoral, ameaçar outros Poderes, ou incitar movimentos golpistas. Quando ele reclama que “o outro lado podia tudo”, revela uma visão distorcida da realidade: seus adversários políticos respeitaram as regras do jogo democrático, enquanto ele tentou mudá-las quando percebeu que perderia.

Mais grave ainda foi sua conduta pós-eleitoral. Após a derrota nas urnas, Bolsonaro não apenas se recusou a reconhecer o resultado – direito democrático de qualquer candidato -, mas ativamente incentivou e legitimou os acampamentos golpistas que se espalharam pelo país. Esses movimentos, alimentados por suas mentiras e omissões, culminaram nos ataques terroristas de 8 de Janeiro, quando hordas de fanáticos tentaram destruir fisicamente os símbolos dos Três Poderes.

A tentativa de minimizar esses fatos como “retórica” ou “desabafos” é uma afronta à inteligência do povo brasileiro e um desrespeito às vítimas da violência golpista. Palavras têm consequências, especialmente quando proferidas por quem detém o poder de influenciar milhões de pessoas. Um presidente que propaga mentiras sobre fraudes eleitorais inexistentes não está apenas “desabafando” – está minando os fundamentos da democracia.

O Estado de Direito não pode ser refém do capricho de autoritários que, quando confrontados com suas responsabilidades, se fazem de vítimas. A democracia brasileira tem se mostrado resiliente, mas sua defesa exige vigilância constante e a aplicação rigorosa da lei. Não há espaço para relativizações ou complacência com quem atentou contra as instituições democráticas.

Bolsonaro hoje se encontra inelegível e responde por crimes gravíssimos contra o Estado Democrático de Direito. Essa não é perseguição – é justiça. É a prova de que, no Brasil, ninguém está acima da lei, nem mesmo ex-presidentes que confundem liderança com autoritarismo e democracia com impunidade.

A democracia brasileira sairá fortalecida deste processo. Mas só se tivermos a coragem de chamar as coisas pelos nomes corretos: o que ocorreu não foram “desabafos” – foi uma tentativa sistemática e premeditada de golpe de Estado. E isso, felizmente, tem nome na lei: crime.