
(Padre Carlos)
Há algo devastadoramente humano no eco de cada explosão que rasga o silêncio – não importa se ressoa em Tel Aviv, Jerusalém, Gaza ou Teerã. Cada estrondo carrega consigo o mesmo grito ancestral da dor, o mesmo tremor nas mãos de uma mãe que tenta proteger seus filhos, o mesmo olhar perdido de uma criança que não compreende por que o céu virou fogo.
Israel emitiu um comunicado dramático após os ataques iranianos: “Civis israelenses estão atualmente sendo alvos do regime iraniano. O mundo não pode ficar em silêncio”. Mas o silêncio já havia sido quebrado, dias antes, por aviões israelenses que atingiram instalações militares e científicas no Irã. Quem se indignou então? Quem gritou pelos civis palestinos enterrados sob os escombros? Pelas crianças cujos nomes jamais aparecerão nas manchetes?
Não se trata de tomar partido. Nem de relativizar ataques. Trata-se de recusar a lógica perversa que hierarquiza a dor, que escolhe quais lágrimas merecem compaixão e quais serão esquecidas. A vida tem o mesmo valor em qualquer lugar do mundo, seja ela israelense, iraniana ou palestina.
O líder iraniano Ali Khamenei prometeu vingança. Israel, por sua vez, acionou seus sistemas de defesa e se declarou em estado de prontidão. É o velho ritual de ódio renovado. Um ciclo que se retroalimenta com discursos inflamados e cadáveres empilhados. Em nome da justiça, cometem-se novas injustiças. Em nome da proteção, produzem-se novos órfãos.
A verdadeira tragédia é a banalização da morte. Quando nos tornamos capazes de assistir aos bombardeios como quem vê um noticiário esportivo. Quando o sofrimento dos outros vira “efeito colateral”. Quando crianças aprendem a reconhecer o som de um míssil antes mesmo de aprenderem a escrever.
A cada comunicado oficial, há nomes que jamais serão lembrados. Há pais que terão que enterrar filhos. Há mães que não terão mais a quem embalar. Há vidas que não cabem nas estatísticas. E é isso que deveria nos indignar: a facilidade com que esquecemos que cada número é um universo perdido.
No final, resta o silêncio ensurdecedor dos mortos e a pergunta que ninguém mais ousa fazer: até quando aceitaremos que o preço da geopolítica seja pago com o sangue dos inocentes?




