
(Padre Carlos)
Como diz o poeta: “faça uma lista de amigos que você via há dez anos atrás”. A proposta é simples, mas profundamente reveladora. A semana em que celebramos o Dia do Amigo nos convida a esse mergulho no passado, na memória afetiva, nos laços que nos sustentaram em dias difíceis e nas companhias que fizeram o riso ter gosto de eternidade.
Os versos do Fundo de Quintal, eternizados também por Xande de Pilares — “quero chorar o teu choro, quero sorrir teu sorriso, valeu por você existir, amigo” — traduzem aquilo que a filosofia, a teologia e até a psicologia tentam há séculos compreender: o mistério da amizade.
Amigo de verdade não é aquele que apenas está presente nas festas ou nos dias de vitória. É aquele que caminha ao nosso lado mesmo quando a estrada é árida, quando o desânimo bate, quando o mundo se cala. O verdadeiro amigo não disputa, não inveja, não trai — ele acolhe.
Mas, infelizmente, nem todos experimentam a profundidade de uma amizade leal. Vivemos tempos de relações líquidas, rasas, descartáveis. Numa era de conexões digitais e vínculos frágeis, os amigos de alma viraram quase relíquias. Em muitos casos, os abraços viraram emojis, as palavras se perderam nos áudios não ouvidos, e a presença virou ausência com sinal de Wi-Fi.
Hoje, neste mês em que celebramos a amizade, eu quero agradecer publicamente aos que ficaram. Aos que resistiram às distâncias, às divergências, aos silêncios e aos desencontros. Amigos que não se resumem a sambas de amor — mas que, na dor ou na alegria, permanecem.
Você que lê este texto: faça sua lista. Veja quem ainda está nela. Ligue. Mande mensagem. Diga: “valeu por você existir.”
Porque amigo de verdade não é aquele que está só na memória — é aquele que, mesmo distante, ainda faz parte do seu presente.




