
(Padre Carlos)
A entrevista recente de Flávio Bolsonaro à Folha de São Paulo não é apenas mais um episódio da retórica autoritária que marca o bolsonarismo desde sua origem. É, na verdade, uma confissão aberta de intenções golpistas. Flávio afirma que qualquer candidato apoiado por seu pai nas eleições de 2026 deverá garantir, como moeda de troca, um indulto presidencial ao ex-presidente Jair Bolsonaro — ainda que este seja condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe.
Mais que isso: Flávio sugere que, se o STF declarar inconstitucional o indulto, caberá ao eleito “cumpri-lo de qualquer forma”, insinuando o uso da força para burlar uma decisão judicial. Estamos diante de uma proposta aberta de subversão da ordem constitucional, algo que deveria soar como um alarme para todos que prezam pela democracia.
Não é de hoje que o clã Bolsonaro tenta travestir sua impunidade em “projeto político”. O que temos aqui é um plano estruturado para capturar o Senado Federal, transformar o Legislativo em escudo e espada da extrema-direita, e minar o STF com pedidos de impeachment dos ministros que ousarem aplicar a lei. Já está em curso a tentativa de eleger quatro membros da família Bolsonaro para o Senado: Flávio (reeleição no RJ), Eduardo (SP), Carlos (SC) e Michelle Bolsonaro (DF).
Essa estratégia escancara um objetivo claro: não há preocupação real com os manifestantes presos pelo 8 de janeiro, nem com a pauta conservadora que mobilizou tantos. O objetivo é salvar Jair Bolsonaro do cárcere e garantir poder suficiente para neutralizar qualquer punição institucional. É um projeto de autopreservação e vingança, não de governo.
O uso da Folha de São Paulo como palanque para esse tipo de ameaça institucional é outro aspecto grave. O jornal, que já foi cúmplice da ditadura ao emprestar veículos para o transporte de presos políticos, agora se presta ao papel de arauto do golpismo, sem destacar nas manchetes o absurdo do que foi dito. Quem lê apenas a capa pode achar que se trata de uma questão legítima de aliança política, e não de chantagem autoritária.
É importante também observar que, mesmo com os arroubos de Flávio, o bolsonarismo anda fragilizado. A reação decepcionada da base bolsonarista à postura submissa de Jair no depoimento ao STF, sua incapacidade de manter o discurso de enfrentamento e a falta de mobilização efetiva nas ruas mostram que a força do clã pode estar em declínio. Mas subestimá-los seria imprudente.
A democracia brasileira precisa ficar atenta à tomada do Senado. Se a extrema-direita conseguir fazer maioria ali, o risco de uma crise institucional sem precedentes aumenta exponencialmente. É necessário denunciar, expor, debater e alertar a população: o projeto de poder da família Bolsonaro não é político — é mafioso. E não há Estado de Direito que sobreviva quando o crime vira estratégia de campanha.




