
(Padre Carlos)
A criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é, antes de tudo, o reflexo de uma institucionalidade que sangra. O anúncio feito por Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Congresso Nacional, oficializa um escândalo que envolve cifras bilionárias e a desproteção dos mais vulneráveis: aposentados, pensionistas e beneficiários da Previdência Social. Estamos diante de um novo capítulo do velho enredo brasileiro – aquele em que o dinheiro público escoa por rachaduras cultivadas à sombra do poder.
O escândalo, revelado por uma operação conjunta da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, desnuda um esquema de descontos indevidos em folha de pagamento. Associações fantasmas e entidades sem qualquer capacidade operacional foram utilizadas para extrair mensalidades de forma ilegal dos segurados. Os beneficiários, muitos dos quais idosos, foram vítimas silenciosas de um sistema que deveria protegê-los. As investigações estimam o rombo em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. Não estamos falando de cifras abstratas, mas de dinheiro arrancado da aposentadoria mínima, do sustento do povo.
A leitura do requerimento por Alcolumbre tem peso simbólico, mas seu real valor político está na instalação e, sobretudo, na condução dos trabalhos. Serão 15 senadores e 15 deputados que terão 180 dias, e até R$ 200 mil em recursos, para dar respostas à sociedade. Mas a pergunta que ecoa é: haverá interesse real em enfrentar as máfias incrustadas no sistema previdenciário? Ou assistiremos mais uma CPI que termina em pizza, regada a discursos indignados e relatórios arquivados?
O Brasil já assistiu a CPIs que começaram com promessas de moralização e terminaram como palanques eleitorais. Por isso, é preciso que a sociedade civil, os sindicatos, os movimentos populares e os próprios beneficiários do INSS estejam atentos. Esta CPI não pode ser sequestrada por interesses políticos ou servir de manobra diversionista.
É urgente que se nomeiem os responsáveis, identifiquem os operadores, rastreiem o dinheiro e proponham soluções concretas para blindar o INSS. A Previdência não pode ser um campo aberto para saqueadores de colarinho branco nem um balcão de negócios de entidades picaretas. A confiança na proteção social precisa ser restaurada.
No fundo, essa CPI será um teste de integridade para o Congresso Nacional. Terá coragem de enfrentar os verdadeiros culpados, inclusive se estiverem entre os que a compõem? Ou será cúmplice, por omissão ou conveniência, de um sistema que engorda as máfias enquanto esmaga o povo?
Que esta investigação não seja mais uma vitrine para discursos, mas um instrumento de justiça. O povo brasileiro não aguenta mais escândalos enterrados no esquecimento.




