
(Padre Carlos)
A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula do G7, no Canadá, é um daqueles episódios em que a política internacional se revela mais como um teatro de simbologias do que um espaço de decisões efetivas. Lula chega como convidado — mas com discurso de protagonista. E isso não é mero detalhe: revela tanto o que Lula quer do G7 quanto o que o G7 quer de Lula.
Para o presidente brasileiro, a ida ao G7 é uma vitrine. E ele sabe usar vitrines. Ao criticar abertamente a legitimidade do grupo — chamando-o de “festa dos primos ricos” — Lula faz o que sempre soube fazer: demarcar território com discurso altivo, sem deixar de ocupar o espaço. Ao mesmo tempo em que diz que o G20 tem mais “densidade humana” e “densidade econômica”, ele não recusa o convite. Afinal, presença também é poder — sobretudo quando se pretende falar em nome do Sul Global.
Lula quer do G7 reconhecimento. Busca reafirmar o Brasil como interlocutor relevante, sobretudo no momento em que o país preside o G20. Quer abrir espaço para a agenda de combate à fome, à desigualdade e à mudança climática — temas nos quais sabe que o discurso brasileiro encontra ressonância, ainda que as ações internas estejam longe da coerência absoluta. Quer também, é claro, ampliar canais de negociação com as grandes economias, especialmente em temas como transição energética, financiamento climático e comércio internacional.
Mas o G7 também tem seus interesses. O Ocidente busca aliados capazes de dialogar com o “resto do mundo” num cenário internacional cada vez mais fragmentado. A guerra na Ucrânia, a tensão no Oriente Médio e o avanço da China sobre os países do Sul Global exigem articulações que vão além do eixo tradicional. Lula, nesse sentido, é peça estratégica: tem prestígio internacional, trânsito entre diferentes campos ideológicos e uma retórica que, mesmo crítica, não rompe com o sistema.
O G7 quer de Lula uma ponte. Alguém que fale com a África, com a América Latina, com os emergentes — mas que continue dialogando com Washington, Paris e Berlim. Alguém que não seja submisso, mas também não seja alinhado a extremos. O Brasil, nesse jogo, entra como potência intermediária, útil para sustentar o discurso ocidental de inclusão e multilateralismo, mesmo que as decisões reais continuem nas mãos de poucos.
O contraste entre presença e poder é gritante. Lula é chamado, mas não decide. Discursa, mas não vota. Participa, mas não delibera. É uma metáfora do mundo em que vivemos: onde o protagonismo simbólico é concedido, mas a estrutura de poder permanece intacta.
Ainda assim, não se pode desprezar o simbolismo. Num mundo em transição — e em fragmentação — símbolos são armas. E Lula sabe usá-las como poucos. Seu desafio agora é transformar esse capital simbólico em conquistas práticas, tanto no cenário global quanto na realidade brasileira.
O que Lula quer do G7 e o que o G7 quer de Lula pode parecer um jogo de interesses recíprocos. Mas, no fundo, é a velha geopolítica vestida de novas intenções.




