Política e Resenha

ARTIGO – O recado de Santa Catarina: não aos forasteiros de ocasião

 

(Padre Carlos)

A política brasileira sempre teve seus episódios folclóricos, mas há momentos em que o bom senso da sociedade se impõe com firmeza. É o que parece estar acontecendo em Santa Catarina diante da intenção de Carlos Bolsonaro, o filho “02” do ex-presidente Jair Bolsonaro, de se candidatar ao Senado por aquele Estado. Em resposta a essa tentativa de importação política, a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) lançou uma nota direta e contundente: “Santa Catarina não precisa importar políticos”. Um recado claro que reverbera a dignidade de um povo que, embora conservador, não aceita ser massa de manobra.

A estratégia de Carlos Bolsonaro é clara: usar o “recall” do sobrenome do pai em um Estado simpático ao bolsonarismo. Mas há uma diferença entre afinidade ideológica e submissão eleitoral. Os catarinenses demonstram que não se trata de rejeição à direita ou à família Bolsonaro — afinal, Jair Renan, o “04”, foi eleito vereador em Balneário Camboriú com votação expressiva. Trata-se, sim, de rejeitar o oportunismo político que despreza a identidade local e os processos democráticos internos.

Santa Catarina tem representantes legítimos, articulados, e profundamente conectados às demandas regionais. É um Estado industrial, pujante, cuja população preza pelo mérito, trabalho árduo e autenticidade. Não é à toa que a Fiesc destacou que os representantes do Estado devem “dialogar com a sociedade” e ter “profunda conexão com os catarinenses”. Isso não se constrói com sobrenome famoso ou com sobrenomes importados de outro CEP.

A tentativa de plantar Carlos no solo catarinense não é apenas um erro estratégico — é também um gesto simbólico da velha política camuflada em novas roupagens. É como se dissesse: “Não importa de onde eu venha, meu sobrenome me credencia”. Ora, esse tipo de arrogância política é o que levou o Brasil a tantos retrocessos.

Santa Catarina envia um sinal importante ao Brasil: representatividade se constrói com raízes, não com oportunismo eleitoral. É uma aula de maturidade política que outros Estados fariam bem em observar. A política nacional precisa voltar a valorizar o território, a cultura e as necessidades locais, em vez de ser um tabuleiro de ambições pessoais.

Se os planos do “02” estão indo por água abaixo, talvez seja o momento de refletir sobre os erros de cálculo. A democracia catarinense falou — e falou alto. E quando um povo diz “não”, não há sobrenome que se imponha.