
Por Padre Carlos
No xadrez geopolítico internacional, algumas peças parecem intocáveis, enquanto outras são empurradas para o abismo sob pretextos que escondem interesses inconfessáveis. A pergunta que ecoa nos bastidores da política mundial é direta: por que os Estados Unidos trataram o Irã com ferro e fogo, e agem com luvas de seda diante da Coreia do Norte?
A resposta, embora evitada nos salões diplomáticos, está escancarada para quem observa o jogo com olhos atentos: o poder nuclear é o verdadeiro escudo da soberania num mundo dominado pelo medo e pela força. E, nesse campo, a Coreia do Norte aprendeu cedo que macaco esperto sabe em que galho sobe. Não se enfrenta uma potência nuclear com a mesma arrogância com que se esmaga um país ainda em busca desse poder.
O caso do Irã: controle, contenção e castigo
O Irã tem sido alvo constante de sanções, sabotagens e ameaças por parte dos EUA e seus aliados ocidentais. O motivo oficial: impedir que o país desenvolva armas nucleares. Mas há mais por trás da cortina de fumaça. O Irã é uma potência regional com vastas reservas de petróleo, influência política no mundo islâmico e uma postura de resistência ao eixo Washington-Tel Aviv-Riad. É um ator que desafia a ordem imposta, e por isso, deve ser controlado.
A assinatura do Acordo Nuclear em 2015 foi uma tentativa de congelar o avanço iraniano. Porém, a retirada unilateral dos EUA sob Trump em 2018 mostrou que o Ocidente não busca apenas controle: quer submissão. O Irã, ao contrário, enxerga no projeto nuclear a única forma de alcançar o equilíbrio de forças no Oriente Médio. E tem razão. O exemplo da Índia e do Paquistão — eternos rivais que coexistem sob a sombra da bomba — revela que o poder atômico, embora perigoso, impõe respeito.
A Coreia do Norte: um “louco” com o dedo no botão
Do outro lado do mundo, a Coreia do Norte, país isolado, pobre, governado por um regime absolutista, tornou-se um ator temido justamente por ter atravessado o Rubicão nuclear. O regime de Kim Jong-un não apenas desenvolveu ogivas nucleares, como mostrou capacidade de lançá-las contra alvos estratégicos, inclusive aliados dos EUA como Japão e Coreia do Sul.
E o que fizeram os EUA? Discurso duro, sanções econômicas — sim —, mas nenhuma invasão, nenhuma guerra, nenhum “choque de civilizações”. Por quê? Porque eles sabem. Sabem que um ataque à Coreia do Norte poderia significar a morte de centenas de milhares de civis em Seul em questão de minutos. Sabem que o “louco do norte” pode ser tudo, menos suicida: ele sabe usar o medo como arma, e os EUA sabem que não se brinca com quem já tem o botão nuclear na mesa.
Dois pesos, duas medidas — e uma lição para o Irã
A grande lição que emerge é simples e brutal: na política internacional, não há moral, há medo. E o medo que os EUA têm da Coreia do Norte é proporcional ao desprezo que demonstraram pelo Iraque de Saddam e pelo Irã dos aiatolás antes do enriquecimento de urânio. Não é à toa que o Irã insiste em manter seu programa atômico: é a única forma de se fazer respeitar num tabuleiro onde só sobrevive quem mostra os dentes.
E não venham falar de “ameaça à paz mundial”. O que mais ameaça a paz é o monopólio das armas atômicas nas mãos de uns poucos. O que desequilibra o mundo é o direito autoproclamado dos Estados Unidos de decidir quem pode ou não ter bomba, quem pode ou não existir com autonomia.
No fundo, o velho ditado popular resume tudo: “macaco sabe em que galho sobe.” E os americanos também. Sabem que há regimes que podem ser derrubados com pretextos humanitários e bombas “cirúrgicas”, e outros que exigem silêncio, cálculo e contenção.
O que o Irã parece finalmente entender — e com razão — é que, sem bomba, não há equilíbrio. Sem equilíbrio, não há respeito. E sem respeito, o próximo galho a cair pode ser o seu.




