Política e Resenha

ARTIGO – O Irã venceu sem ajoelhar

 

(Padre Carlos)

O cessar-fogo entre Irã e Israel, confirmado no dia 24 de junho de 2025, não é apenas uma trégua militar: é uma vitória geopolítica e simbólica para o regime iraniano e, sobretudo, um marco na reconfiguração das alianças no Oriente Médio. O Irã não apenas resistiu ao ataque combinado dos seus inimigos declarados – Israel e os Estados Unidos –, como conseguiu algo ainda mais raro: comoveu e unificou temporariamente o mundo árabe e muçulmano em torno de sua causa.

Em meio às ruínas e às ameaças nucleares veladas, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian falou como estadista de uma nação que resistiu. A declaração pública de que “toda a glória por esta vitória histórica pertence à grande e civilizada nação do Irã” é, por si só, um desafio à narrativa do Ocidente e um apelo ao orgulho persa e islâmico. Israel, por sua vez, recua e transfere sua atenção de volta a Gaza, revelando que, mesmo com seu poder bélico, encontrou limites.

O que se desenrolou nesses 12 dias não foi apenas um conflito regional. O Congresso dos Estados Unidos se preparava para embates internos frente às decisões do presidente Donald Trump, enquanto Rússia e China observavam de prontidão, a um passo de entrar no jogo – não necessariamente com tropas, mas com tecnologia, diplomacia e apoio velado. O mundo ficou na beira do abismo.

Trump, como de costume, fez uso da retórica inflamada ao dizer que “obliterou” as instalações nucleares do Irã, enquanto o ataque iraniano a uma base americana no Catar – simbólico, sem vítimas – foi rotulado como “fraco”. Mas a fraqueza, na verdade, foi outra: o fracasso dos EUA e de Israel em dobrar o regime iraniano, como fizeram com o Iraque de Saddam Hussein em 2003. Desta vez, a história foi outra.

O Irã mostrou que não se trata de um regime isolado, mas de um polo de resistência com capacidade de articulação política, militar e cultural. O apoio explícito ou velado de nações como Síria, Líbano, Catar e Turquia ao discurso de Teerã revela que o sonho da unidade árabe – tantas vezes explorado e tantas vezes traído – ainda respira.

A Palestina, com sua dor crônica, voltou a ser um catalisador moral e simbólico. O sofrimento em Gaza, amplificado pela reação iraniana, tocou os corações das populações árabes que viram no levante persa uma forma de defesa dos indefesos. A aliança entre Irã e Palestina, embora complexa, ressurgiu como um eixo emocional potente.

A guerra termina, por ora, mas o campo minado das versões segue em disputa. De um lado, o Ocidente tenta vender uma vitória cirúrgica e racional. Do outro, o Irã transforma sua resistência em um símbolo de dignidade nacional e pan-islâmica.

Israel e os EUA queriam derrubar o regime iraniano. Não conseguiram. A vitória não foi total, mas foi clara: o Irã não abaixou a cabeça. E, no Oriente Médio, isso significa tudo.