Política e Resenha

ARTIGO – A revolta contra os privilégios indecentes do andar de cima (Padre Carlos)

 

 

Vivemos tempos em que a indignação virou rotina, mas há certos absurdos que ultrapassam até mesmo o nosso já elástico limite de tolerância. Nesta semana, um protesto virtual ganhou força nas redes sociais: uma campanha nacional pede a redução imediata de 60% nos salários de senadores, deputados e magistrados. Mas não para por aí — exige-se também o fim de privilégios imorais como passagens aéreas gratuitas, carros blindados, apartamentos funcionais, auxílio paletó, e até verba de restaurante, como se o Brasil de verdade não estivesse lutando diariamente para pôr feijão no prato.

É mais do que justo. É urgente. É ético.

Enquanto o trabalhador brasileiro se vira com um salário mínimo de R$ 1.518,00 para alimentar uma família, deputados desfilam com pacotes mensais que ultrapassam os R$ 340 mil, somando verbas de gabinete, auxílios diversos e mordomias que fariam corar até a nobreza do Antigo Regime francês.

A justificativa? Que precisam de estrutura para trabalhar. Mas em tempos digitais, quando reuniões se resolvem em telas e documentos circulam por e-mail, faz sentido bancar passagens aéreas semanais e celulares pagos com dinheiro público? É justo que um parlamentar receba auxílio-moradia e, ao mesmo tempo, use apartamento funcional pago pela União? A resposta é clara como o sol do meio-dia: não, não é.

O Brasil não suporta mais sustentar essa aristocracia do funcionalismo público de luxo. Não há explicação razoável, nem moral, nem jurídica, que legitime tamanha desigualdade dentro do próprio Estado. Há trabalhadores morrendo em filas de hospitais públicos enquanto parlamentares fazem check-up em clínicas cinco estrelas, pagos com recursos da população.

A hora é de reação. Não se trata de populismo barato, mas de justiça. Não se trata de demonizar a política, mas de resgatar sua dignidade. A sociedade brasileira exige que os ocupantes de cargos públicos vivam sob as mesmas regras que qualquer cidadão. O que vale para o trabalhador, vale para o político. Sem exceção. Sem jeitinho.

Esse movimento popular é, antes de tudo, um grito por equidade. Que essa corrente virtual se transforme em força real, em cobrança pública, em pressão legislativa. Que a reforma comece de cima — porque é lá que o excesso mora, que a vergonha se esconde, e que a mudança precisa nascer.