
(Padre Carlos)
A cada novo massacre estampado nos jornais — quando estampa —, o Brasil revela a podridão de suas entranhas. No país da cordialidade seletiva, onde os direitos humanos são acusados e os direitos dos mortos ignorados, o sangue de jovens negros segue regando os becos das periferias. Chacinas como as do Cabula (Bahia), do Jacarezinho (Rio de Janeiro) e da Operação Escuro (São Paulo) não são incidentes isolados. São faces de uma engrenagem que opera cotidianamente, sob o manto da legalidade e com o silêncio cúmplice do Estado.
A violência policial no Brasil alcançou níveis de barbárie institucionalizada. A polícia letal, que deveria proteger, tornou-se a principal ameaça à vida nas comunidades pobres. A estatística choca: em 2023, a Bahia registrou quase 2000 mortes causadas pela polícia; número é maior que o do RJ e SP
. No Rio, o massacre do Jacarezinho, que vitimou 28 pessoas, foi tratado pelo governo como “operação bem-sucedida”. O que essas mortes têm em comum? A cor das vítimas, a localização dos crimes e a impunidade que os cerca.
Quando o Estado investiga a si mesmo, o resultado é previsível: absolvição. As chacinas policiais são arquivadas nos escaninhos do esquecimento institucional. A lógica da “investigação interna” — feita por corregedorias ligadas à própria estrutura policial — é uma paródia de justiça. O que se perpetua é a impunidade no Brasil, sobretudo quando os mortos são os de sempre: jovens negros das periferias.
Nesse cenário, a federalização das investigações emerge como uma medida necessária e urgente. Transferir a apuração de crimes cometidos por agentes de segurança para a esfera federal é romper com o ciclo de autoblindagem. É permitir que outras instituições, como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, conduzam investigações isentas, com metodologia, perícia e — principalmente — compromisso com a verdade. Federalizar é garantir que os crimes não sejam julgados pelas mesmas mãos que os cometeram.
Não se trata de enfraquecer a polícia, mas de fortalecer o Estado Democrático de Direito. A federalização de investigações é instrumento previsto na Constituição, voltado para casos em que há violações sistemáticas de direitos humanos ou omissão das instâncias locais. E é exatamente isso que temos: uma política de segurança pública fundada na lógica da guerra, onde o inimigo interno tem cor, moradia e sobrenome invisível.
O racismo estrutural não é uma abstração acadêmica — ele é a chave que destranca o gatilho fácil. Ele autoriza a polícia a entrar atirando. Ele justifica os corpos no chão. Ele silencia os inquéritos. E é contra essa estrutura que a sociedade precisa se insurgir. Não com indignações episódicas, mas com mobilização política, pressão institucional e luta jurídica.
Não há país justo sem responsabilização. Não há democracia com cemitérios lotados de inocentes. Federalizar as investigações das chacinas policiais não é apenas um ato técnico, é um grito ético. É dizer ao poder que o tempo da impunidade acabou. É fazer da justiça uma ponte — e não uma lápide.
Porque, no Brasil, a bala tem destino certo. E a justiça precisa, urgentemente, mudar essa rota.




