Política e Resenha

ARTIGO – Junho: Mês da Fé Encarnada, da Fogueira Acesa e da Esperança no Terreiro (Padre Carlos)

 

 

Junho não é só um mês. É um estado de espírito. Um tempo litúrgico da alma popular. Um calendário de fé encarnada nas mãos calejadas das lavadeiras, nos pés descalços das crianças correndo ao redor da fogueira, e no coração pulsante do povo que dança e reza ao mesmo tempo.

O céu de junho não é o mesmo. Ele desce mais perto da terra. Veste-se de bandeirolas, de estrelas piscando como olhos de santo. O vento muda de tom. Sopra diferente no sertão. Traz cheiro de lenha, de milho assando, de saudade boa. É o único mês onde o frio vira calor — não por causa da temperatura, mas pela presença viva dos santos: Santo Antônio, São João, São Pedro.

Essa é a única trilogia do mundo em que os protagonistas não competem. Se completam. Cada qual com sua missão divina e seu encanto terreno. Cada qual com uma festa que o povo transformou em sacramento da alegria.


Santo Antônio – O Casamenteiro da Esperança e da Mesa Farta

Junho começa com ele, o mais solicitado, o mais invocado e — coitado — o mais castigado dos santos: Santo Antônio.

Mas que ninguém se engane com os pedidos românticos. Antônio de Lisboa é teólogo refinado, Doutor da Igreja, pregador eloquente. Mas foi sua preocupação com os pobres e com os que não têm com quem dividir o pão e a vida, que o fez cair nas graças do povo.

Por isso ele virou padroeiro das moças solteiras — não por vaidade, mas porque quem quer casar, quer partilhar. E partilhar é um gesto profundamente cristão.

Nas festas do dia 13, o povo agradecia o pão conseguido, o emprego alcançado, a promessa atendida. Nas comunidades, celebrava-se o Trezena, e ao final dela vinha o leilão das prendas, as barracas com bolo de milho, pé de moleque, e o tradicional bolo com aliança dentro — quem achasse o anel, seria o próximo a casar.

Os pedidos a Santo Antônio sempre foram exagerados, quase chantagistas. Ele era colocado de cabeça pra baixo, trancado na gaveta, mergulhado no copo. Tudo com uma fé quase infantil, mas poderosa. Uma fé que não tem vergonha de pedir. Que acredita que Deus escuta até o coração mais aflito. Santo Antônio é o advogado dos desesperados — não apenas por amor, mas por dignidade.


São João – O Profeta do Fogo, da Alegria e da Promessa Cumprida

Depois de Antônio, vem São João Batista. Não o evangelista, não o apóstolo. Mas aquele que viveu no deserto, vestia-se de pele de camelo e comia gafanhoto com mel — e mesmo assim, é um dos santos mais festejados do planeta.

São João é fogo. Fogo que anuncia, que prepara, que aquece. Fogo que não destrói, mas ilumina. Ele é o precursor, aquele que veio antes de Jesus. E como não poderia deixar de ser, sua festa é a mais luminosa de todas.

No dia 24, o sertão se transforma. A véspera é mais importante que o dia. A fogueira é acesa com solenidade. No interior, se rezava antes de acender. O velho acendia com a vara embebida em querosene e dizia: “São João, acende essa chama. Que ela nunca se apague na fé do nosso povo.”

Era o ponto alto do mês. Os avós se tornavam mestres de cerimônia. A casa virava centro de distribuição de alegria. As mulheres na cozinha, preparando pamonha, canjica, bolo de aipim. As crianças na roça, correndo com estalinhos, pulando fogueira, tentando não rasgar a roupa xadrez que a mãe passou a noite costurando.

Não se falava em bebida. A embriaguez era da música, do cheiro de milho, do som do forró. A dança era mais que entretenimento: era liturgia popular.

A fogueira representava a luz de João, que acendia a chegada de um novo tempo. Era a “voz que clama no deserto”, como diz a Bíblia, agora ecoando no terreiro da casa.


São Pedro – O Guardião das Portas, das Chuvas e dos Recomeços

E quando o mês parecia se apagar, vinha ele: São Pedro. Silencioso, quase discreto, mas profundamente necessário.

Pedro é o que carrega a chave. A chave do céu, sim. Mas também a chave do coração endurecido, da terra seca, da esperança guardada.

Era ele que o povo do campo invocava quando a chuva demorava: “São Pedro, manda água que o milho tá morrendo.” Ele era o padroeiro dos pescadores, dos agricultores, dos que vivem do que plantam ou do que puxam do mar. Pedro representa a fé do trabalhador.

No dia 29, a festa era mais modesta, mas cheia de reverência. Era a noite das últimas fogueiras, menores, mas simbólicas. Às vezes a festa era à beira de um rio, ou em algum bairro afastado. Os fiéis rezavam com fervor, cantavam ladainhas, e agradeciam o mês que passou.

Na teologia popular, Pedro é o santo das segundas chances. Aquele que negou, mas foi perdoado. O que duvidou, mas foi sustentado. O que caiu, mas levantou. Por isso ele fecha junho. Porque todo final precisa de reconciliação.


Junho: Tempo de Raiz e de Recomeço

É por tudo isso que junho não é só alegria. É também memória. É reencontro com nossa espiritualidade mais profunda. É quando o Brasil reencontra sua alma caipira, sua mística de chão batido, sua fé com cheiro de milho e barro.

Hoje a festa cresceu, se modernizou, virou espetáculo em praça pública, atração turística. Isso é bom. Mas que a gente não perca o essencial: junho é a missa campal do povo brasileiro. É o altar improvisado no quintal. É o evangelho segundo o sertão.

Que nossos filhos, netos e os filhos dos filhos deles possam herdar não só o chapéu de palha, mas a devoção. Não só a quadrilha, mas a fé. Que eles saibam que por trás da fogueira, há um santo; por trás do milho, há partilha; por trás da dança, há uma história de amor entre o povo e seus protetores.

Viva Santo Antônio! Viva São João! Viva São Pedro! Viva o povo que transforma a fé em festa, e a festa em esperança.