Política e Resenha

ARTIGO – PROGRESSISTAS  TRAEM,  PT  PERDOA: A  NOVA  LITURGIA  DO  ABSURDO POLÍTICO  NA  BAHIA (Padre Carlos)

 

 

O Brasil continua sendo uma aula prática de como transformar o palco em método político. Na Bahia, então, esse curso é avançado e tem tutoria personalizada. Observemos o caso recente: o partido Progressistas, mais precisamente o seu ramo estadual, encabeçado por Mário Negromonte Jr., ajuda a aplicar uma derrota acachapante no governo Lula no Congresso Nacional. E qual é a resposta do PT? Nenhuma. Ao contrário. Sorrisos, tapinhas nas costas e retratos de afeto, como se nada tivesse acontecido.

O centão bate — e bate com gosto. O PT, com cara de mulher traída em novela mexicana, sorri como se estivesse feliz pela escapada do marido. O Progressistas age pelas costas, e os petistas seguem como se não tivessem sido apunhalados. Isso tem nome, mas deixemos para os leitores completarem mentalmente, com o pudor que a liturgia da política não exige mais.

Mário Jr., o personagem central da pantomima, estava em plena paz espiritual ao lado do ministro Rui Costa e do governador Jerônimo Rodrigues, como se não tivesse acabado de colaborar com a oposição em uma votação crucial sobre o IOF. Deveria haver, no mínimo, um traço de constrangimento. Mas não: temos sorrisos largos, abraços e poses para a posteridade. A política virou selfie — e o conteúdo, irrelevante.

É verdade que o Progressistas nunca escondeu sua vocação camaleônica. Quem não lembra da adesão de deputados estaduais baianos ao governo Jerônimo entre os dois turnos da eleição de 2022? É a velha fórmula: a ideologia é a sobrevivência e o compromisso é com o próprio mandato. Mas quando um parlamentar que votou contra o governo Lula posa feliz ao lado dos que deveriam estar, ao menos simbolicamente, indignados… estamos diante da consagração do palco como arte de governo.

“Ah, mas você está exagerando”, dirá o leitor crédulo. Talvez. Ou talvez estejamos apenas diagnosticando o óbvio. O caso de Ipiaú já mostrava que Mário Jr. é adepto do multilateralismo palanqueiro: subir no mesmo tablado com adversário não é problema. Porque, na política brasileira, o inimigo de hoje é o cabo eleitoral de amanhã — desde que leve votos. Ideologia? Só se for aquela que garante fundo partidário.

O problema, contudo, não é apenas Mário Jr. O que na verdade choca é a naturalização do escândalo. Rui Costa, que ainda há poucos dias reclamava da derrota relâmpago da medida provisória, estava lá — ao lado do algoz. E não como quem observa um adversário, mas como quem reencontra um velho amigo num churrasco de domingo.

Jerônimo, por sua vez, parece ter terceirizado até a indignação. Seus critérios de seletividade são quase místicos. Quando aliados são alvo da Justiça, ele oferece a mão. Quando adversários enfrentam as mesmas acusações, o silêncio é sepulcral. Binho Galinha? Overclean? Silêncio pastoral. A moral é sempre uma questão de conveniência.

E assim vamos, entre sorrisos e selfies, construindo um novo modelo de governismo: o que abraça o inimigo e finge que ele é parte da tropa. O PT, que deveria ser a âncora de coerência ideológica da esquerda, parece hoje mais preocupado em manter alianças pragmáticas do que em preservar o que resta de sua identidade.

O deus grego Baco deve estar satisfeito. Porque esse é um tempo de festa, de esquecimento e de prazer desmedido. O Brasil é um verdadeiro bacanal político — e a Bahia, nesse cenário, é a ala VIP da orgia institucional. Quem precisa de coerência quando se tem convites para o camarote?