Política e Resenha

ARTIGO – As Mãos Femininas que Libertaram o Brasil (Padre Carlos)

 

 

A história oficial, escrita a tinta de poder e narrada quase sempre na voz grave dos homens, teima em apagar das páginas da memória nacional o protagonismo feminino na Independência do Brasil — especialmente na gloriosa e sangrenta luta travada na Bahia. Mas há nomes que insistem em não morrer, que gritam através dos séculos, que sangram com dignidade e coragem: Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa.

Essas mulheres não apenas participaram da luta: elas foram a luta. Maria Quitéria rompeu com os costumes e com os limites impostos por uma sociedade patriarcal que não aceitava mulheres na guerra. Vestiu-se de homem, alistou-se no exército e, com farda e fúria, combateu com mais bravura que muitos dos seus colegas de farda.

Joana Angélica, por sua vez, abriu os portões do convento e do martírio. Morreu cravada de baionetas ao tentar impedir que soldados portugueses invadissem o Mosteiro da Lapa. Seu gesto é símbolo não apenas da fé, mas da entrega absoluta à causa da liberdade.

Maria Felipa, mulher negra, pescadora e marisqueira da Ilha de Itaparica, liderou um grupo de mulheres que queimaram embarcações portuguesas com táticas de guerrilha. Subestimada pelos registros oficiais, sua ousadia foi decisiva na resistência baiana. E sua negritude, tantas vezes invisibilizada, é símbolo de uma Bahia que sempre foi afro-indígena e popular.

Essas três heroínas não são exceções; são representações de milhares de mulheres baianas que lutaram com o que tinham: azeite fervente, redes de pesca, bordados e orações, palavras afiadas e braços fortes. Mulheres que, enquanto os homens discursavam, derramavam sangue.

Neste 2 de Julho — que é, de fato, o verdadeiro Dia da Independência do Brasil — é preciso recontar a história. Não com uma pena tímida, mas com a coragem de admitir que a Independência da Bahia teve corpo de mulher, alma de mulher, dor de mulher. E isso deve ecoar, não apenas nos palanques e desfiles, mas nas salas de aula, nos livros didáticos, nos monumentos e nas consciências.

Que as mãos femininas que escreveram a nossa liberdade com coragem e sangue, sejam reconhecidas no panteão dos grandes heróis da pátria. E que as mulheres de hoje, enfrentando outras batalhas — contra o machismo, o feminicídio, a desigualdade — vejam nelas um espelho, uma inspiração, um legado.

Porque a verdadeira independência só será conquistada quando a história deixar de ser seletiva e passar a ser justa.