
(Padre Carlos)
Se a Constituição de 1988 fosse uma partitura, o princípio da eficiência seria sua nota mais desafinada — tanto que só foi incluído em 1998. E mesmo assim, continua sendo solenemente ignorado por aqueles que, com a batuta na mão, regem a orquestra desafinada da política brasileira. É esse o tom do duro, mas lúcido, discurso do governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, que virou viral ao colocar o dedo na ferida necrosada das emendas parlamentares — essa praga orçamentária que se espalhou da União aos municípios como epidemia sem vacina.
O governador não está só incomodado; ele está alarmado. E com razão. O Brasil instituiu, com verniz democrático, um sistema paralelo de poder financeiro, onde cada parlamentar se torna uma espécie de mini-executivo, capaz de redirecionar bilhões do orçamento público para atender não a lógica do planejamento estratégico, mas à lógica do toma-lá-dá-cá eleitoral.
E se isso já era suficientemente escandaloso em nível federal — R$ 50 bilhões em emendas, segundo Mendes —, o que dizer agora que os estados e até os municípios resolveram copiar a brincadeira? Sim, você leu certo: há câmaras de vereadores replicando o modelo federal, criando suas próprias emendas parlamentares, muitas vezes com valores que superam os investimentos feitos por prefeitos. É o apocalipse contábil travestido de autonomia legislativa.
O resultado disso é um Brasil onde o Congresso não legisla — intermedia recursos. Onde vereadores viram pequenos príncipes do orçamento e prefeitos, reféns. Onde os debates estruturais, como a reforma do Código Penal de 1940 ou o abismo da Previdência (com déficit de R$ 416 bilhões), viram notas de rodapé diante da batalha campal das emendas. Como bem ironizou o governador, é mais fácil encontrar um vereador na antessala de um deputado federal em Brasília que em sua base discutindo saneamento, saúde ou segurança.
E por que isso importa? Porque, como disse Mendes, sem eficiência não se constrói uma nação próspera. País nenhum chegou ao topo com gestores ineficazes, com verbas pulverizadas em obras eleitoreiras de impacto mínimo. Nenhuma empresa vence o mercado sem estratégia, nenhum time é campeão sem técnico, nenhuma orquestra brilha sem maestro. O Brasil, com 5.570 maestros improvisados, só pode produzir cacofonia.
Mendes não atacou partidos, não alvejou governos específicos. Ele denunciou um sistema que virou anomalia institucionalizada, uma engrenagem que nos conduz — silenciosamente — a um colapso fiscal anunciado. O Tribunal de Contas da União já cravou: 2027 pode ser o ponto de ruptura. Mas, como ele alerta, esse colapso pode vir antes e de forma mais profunda do que imaginamos.
É hora de perguntar: quem realmente governa o Brasil? O Executivo eleito ou o Orçamento Secreto travestido de transparência institucional?
O Congresso precisa urgentemente abandonar o papel de despachante orçamentário para reassumir sua missão primeira: legislar. E isso não se faz com 2% aqui, 3% ali. Isso se faz com coragem, com reforma, com clareza, com rastreabilidade — e, acima de tudo, com o tal princípio da eficiência que tanto se exalta e tão pouco se pratica.
Ou reformamos esse sistema de emendas que virou chantagem institucional, ou continuaremos sendo o país do futuro… eternamente atrasado.




