Política e Resenha

ARTIGO – A Praça, o Povo e a Vergonha Nacional

 

 

(Padre Carlos)

Enquanto nos palácios de Brasília os poderosos debatem friamente sobre reformas e ajustes fiscais, congelamentos e desonerações seletivas, o povo – aquele que habita o chão da Praça dos Três Poderes – continua pagando a conta. É dele o suor que sustenta os monumentos da República. Mas, paradoxalmente, é ele o mais desrespeitado nessa engrenagem institucional.

A recente tentativa do Congresso Nacional de proteger os que vivem no “andar de cima” – super-ricos, banqueiros, especuladores e donos de grandes fortunas – em detrimento da maioria trabalhadora, revela a tragédia silenciosa de um país que caminha a passos largos para o abismo da desigualdade.

Como aceitar que se cogite congelar o salário mínimo por seis anos? Como admitir que se vete uma proposta que isenta do Imposto de Renda quem ganha até cinco salários mínimos? Como justificar que o Brasil continue sem taxar lucros e dividendos, enquanto o povo de salário apertado continua pagando tributos até no pão que come?

É inaceitável que em um país onde 80% da população é pobre ou classe média baixa, a prioridade seja garantir privilégios à minoria do 1% mais rico. A matemática é cruel: menos de 1% concentra a maior fatia da renda nacional, enquanto os demais vivem de migalhas e promessas. Essa não é uma questão técnica, é uma escolha política — perversa, elitista e estruturalmente injusta.

Flávio Dino, em rara lucidez institucional, nos recorda que a Praça dos Três Poderes não é apenas um símbolo arquitetônico. Ela é o coração da soberania popular. No centro dela está o povo. E é o povo que arca com as consequências dos erros do Executivo, dos abusos do Judiciário e da canalhice legislativa.

Enquanto o Congresso manobra para liberar emendas sem rastreabilidade, enquanto se cria um orçamento secreto que serve de moeda de troca, enquanto o discurso da austeridade fiscal é usado como chicote contra os mais vulneráveis, o povo observa, paga e sofre.

E o mais doloroso: é tratado como se fosse burro.

Há uma subestimação brutal da inteligência popular. Mas esse jogo está com os dias contados. A consciência social está despertando. O grito que ecoa nas redes, nas praças e nos lares é claro: o povo exige respeito.

Não é apenas o Executivo que está sendo desrespeitado nas suas atribuições constitucionais. Não é apenas Lula que tem suas propostas sabotadas por um Congresso capturado. O verdadeiro lesado é o povo. Aquele mesmo povo que paga imposto até na farinha, que tem o salário corroído pela inflação e que depende de serviços públicos sucateados porque a elite se nega a contribuir.

A política que deveria ser instrumento de justiça social está sendo usada para perpetuar castas. A blindagem da elite, o desprezo pelas maiorias e a criminalização da pobreza compõem o retrato atual de um parlamento divorciado da realidade do país.

É por isso que se faz urgente a conscientização. É urgente curtir, compartilhar, informar. Porque é nesse trabalho de formiguinha, nessa pedagogia da resistência, que se constrói o verdadeiro poder popular.

O povo precisa deixar de ser figurante da democracia e reassumir seu papel de protagonista.

A praça é do povo.
Mas o povo precisa voltar a ocupá-la com consciência, com coragem e com voto.