
(Padre Carlos)
Vivemos tempos em que os nomes se desfiguram e as palavras perdem sua honra. O termo “pragmatismo” — que na tradição filosófica representava uma atitude reflexiva diante dos efeitos reais das ideias — transformou-se, no Brasil contemporâneo, numa máscara usada para justificar alianças espúrias, silêncios cúmplices e concessões que minam o espírito de luta de uma esquerda que um dia prometeu ser a voz dos invisíveis.
O Partido dos Trabalhadores, nascido nas greves e na esperança de um Brasil mais justo, há muito vem sendo capturado por uma lógica de governabilidade que o tornou refém do centrão — esse bloco amorfo, fisiológico e mercantil, que não tem pátria, nem povo, nem ideologia, apenas interesses. Em nome de uma suposta estabilidade, Lula e o PT entregaram aos mercadores da política os anéis, os dedos e agora a alma.
O caso da Bahia é exemplar. Aqui, deputados de partidos que integram a base do governador Jerônimo Rodrigues — também do PT — têm votado sistematicamente contra o povo, alinhados ao mesmo centrão que sabota as conquistas sociais. A incoerência virou método. A ambiguidade se tornou discurso oficial. E a esquerda baiana, com honrosas exceções, permanece calada, anestesiada ou mesmo cúmplice.
Até quando?
Até quando o discurso da conciliação vai servir para sustentar alianças com setores que sabotam os direitos dos trabalhadores, defendem a precarização dos serviços públicos, cortam recursos da educação e flertam com o autoritarismo? Até quando vamos aceitar que um projeto popular se alimente do leite da vaca que o centrão ordenha todos os dias para alimentar seus currais eleitorais?
Enquanto Lula for uma máquina de votos — e enquanto sua imagem ainda garantir a governabilidade — essa ambiguidade persistirá. Mas ela tem prazo de validade. A esquerda, se não reencontrar sua raiz ética, será tragada pela mesma lama que hoje tenta usar como atalho. Quando o leite secar, quando a máquina enferrujar, o que restará? Um campo minado por traições, desalento e descrença.
E se é verdade que a direita tem culpa — pelo que representa, pelo que defende, pelo que destruiu — também é verdade que devemos rastrear as alianças que ela buscou e encontrou dentro da esquerda. Pois quem ajuda a eleger os algozes da democracia compartilha da responsabilidade por cada retrocesso.
Está na hora de a esquerda fazer um exame de consciência. Está na hora de separar o trigo do joio, a firmeza da covardia, o pragmatismo da traição. A história cobrará seu preço. E não haverá retórica que justifique os pactos que se fizeram contra os sonhos de um povo inteiro.




