Política e Resenha

ARTIGO – “Cinco Golpes Contra Todas Nós”

 

(Padre Carlos)

O chão de Planalto ainda está encharcado do sangue de Edilaine de Jesus da Silva Luz. Não há exagero nesta afirmação. A brutalidade do crime, a covardia do ato e a indiferença de quem insiste em normalizar a barbárie tornam o assassinato de Edilaine uma ferida aberta, latejando não apenas no Centro Sul Baiano, mas na alma de um país inteiro que parece não saber mais proteger suas mulheres.

Eram 7h30 da manhã de um sábado. Hora em que a maioria das pessoas se levanta para trabalhar, estudar ou cuidar da vida simples e honesta. Edilaine fazia isso: seguia de moto, acompanhada de uma amiga, para mais um dia de luta. Mas havia um predador à espreita. João Paulo Silva de Sá, seu ex-companheiro, a esperava no trajeto. Quando a viu, lançou o carro contra ela como se sua raiva fosse um míssil. Não bastasse o atropelamento, desceu do veículo e cravou nela cinco golpes de punhal. Cinco. Cada um deles uma tentativa brutal de silenciar uma mulher que já havia dito “não”.

A cena, descrita por testemunhas e relatada pela Polícia Civil, é digna dos piores pesadelos. A amiga que a acompanhava também se feriu. E o povo de Planalto, acostumado à tranquilidade interiorana, viu sua rotina ser dilacerada por um feminicídio que não é apenas mais um: é o reflexo de uma sociedade doente, que alimenta o machismo, protege os agressores e vira o rosto quando o sangue escorre.

O corpo de Edilaine foi sepultado no dia seguinte, em meio a lágrimas e gritos contidos de uma comunidade que começa a despertar para a urgência da luta. O povoado de Lagoa Danta, onde vivem seus pais, não chorou apenas por ela, mas por todas as Edilanes que o Brasil tem perdido. Porque o feminicídio, este nome técnico e frio, é na verdade o assassinato de alguém por ser mulher. E isso diz muito sobre o nosso fracasso coletivo.

João Paulo se entregou à polícia no domingo. Custodiado no Conjunto Penal de Vitória da Conquista, aguarda pela Justiça. Mas, sejamos honestos: de que justiça falamos? A que chega tarde, quando o sangue já secou? A que prende, mas não previne? A que faz manchetes, mas não muda mentalidades?

O caso está sendo investigado como feminicídio. Que seja. Mas é preciso mais do que investigações. É preciso um pacto social e político contra essa epidemia de violência. É preciso punir com rigor, proteger com urgência e educar com profundidade. É preciso que o Estado saia da sua letargia e atue como agente de vida e não como cúmplice da morte.

Edilaine não será esquecida. Cada uma de suas cinco feridas será transformada em denúncia, em clamor, em voz. O grito que não pôde dar naquela manhã precisa ecoar agora em cada rua, em cada escola, em cada parlamento. Porque o que aconteceu em Planalto não é apenas um crime. É uma vergonha nacional. E nós, enquanto sociedade, não podemos mais nos calar.