Política e Resenha

ARTIGO – Justiça para poucos, silêncio para muitos

 

(Padre Carlos)

Enquanto milhares de servidores públicos da Bahia enfrentam um PLASERV falido,  filas no SUS, ônibus lotados, salários achatados, carga horária exaustiva e uma crônica desvalorização, o Tribunal de Justiça do Estado segue habitando outro planeta – talvez uma Bahia paralela, uma monarquia dentro da república.

Na calada de um sistema que se pretende democrático, o TJ-BA aprovou por unanimidade – e sem qualquer constrangimento – um reajuste de R$ 700 reais para vantagens pessoais de seus servidores. Sim, um aumento nominal gordo, generoso, elegante, com efeitos retroativos desde maio. O projeto agora caminha para a Assembleia Legislativa da Bahia, onde o jogo é sempre conhecido: aprova-se o que interessa à casta, silencia-se sobre o que aflige o restante do funcionalismo.

O problema aqui não é o reajuste em si. Ninguém pode ser contra a valorização dos trabalhadores. A questão é a seletividade da justiça. Porque justiça de verdade começa dentro de casa – e neste caso, dentro do Estado. Pergunte a um policial civil, a um técnico de enfermagem, a um professor da rede estadual ou a um servidor da UNEB quando foi seu último reajuste digno. Quando recebeu algum retroativo. Quando teve sua luta sequer reconhecida.

O funcionalismo público da Bahia, fora o “clero togado”, vive em permanente jejum de valorização. São os invisíveis de um sistema que os consome, mas não os enxerga. O discurso do equilíbrio fiscal só vale para eles. Já para os tribunais, as contas sempre fecham. Milagrosamente.

A verdade é que há duas categorias de servidores no serviço público: os da casta e os da labuta. Uns, com sindicatos poderosos, acesso direto ao parlamento e salários que escorrem pelos corredores de mármore. Outros, abandonados, esperando anos por um reenquadramento ou uma reposição inflacionária.

E não se trata de inveja ou ressentimento. Trata-se de isonomia, princípio basilar da Constituição. Ou será que a Carta Magna também virou letra morta no Diário Oficial?

O governo Jerônimo Rodrigues, se quiser ser diferente dos seus antecessores, precisa parar de agir como mordomo das elites do funcionalismo. Precisa ter coragem de dizer não a privilégios e sim à justiça distributiva. Porque, afinal, governar não é agradar aos mais fortes, é proteger os mais frágeis.

Não há como falar de justiça social quando a própria Justiça se fecha em castelos de privilégios. E o povo, como sempre, assiste da plateia – sem reajuste, sem retroativo, sem respeito.