Há perguntas que nos assaltam em silêncio, no intervalo de um telejornal ou na quietude da madrugada. Diante das recentes entrevistas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma delas ecoa com particular insistência: o Brasil, em sua atual configuração de afetos e ódios, realmente merece a figura que o governa?
Assisti, com o coração inquieto, a um homem de 78 anos que, longe de se apresentar como um mito ou salvador, revelou um líder que carrega nos ombros o peso de um país fraturado. Em sua fala, não havia o triunfalismo do poder, mas a lucidez de quem conhece as cicatrizes da nação e as suas próprias. Havia uma ternura teimosa, uma recusa em se render ao cinismo, mesmo quando o cenário convida à exaustão.
De um lado do ringue, temos o barulho ensurdecedor. Um coro de dissonâncias movido a ofensas, desinformação sistemática e o dogmatismo de uma extrema direita que não busca o debate, mas a aniquilação do adversário. Para este grupo, Lula não é um opositor político; é um inimigo a ser exterminado, um símbolo a ser demolido, custe o que custar à estabilidade democrática.
Como se não bastasse a trincheira interna, surgem as pressões externas, com a arrogância de sempre disfarçada de verniz diplomático. Os Estados Unidos, em uma demonstração de anacronismo colonial, se sentem no direito de opinar sobre as decisões soberanas do nosso Judiciário, questionando o julgamento de um ex-presidente que flertou abertamente com a ruptura institucional. Querem nos ditar as regras do jogo democrático como se ainda fôssemos seu quintal. E, para além da retórica, agem na prática, impondo tarifas que, sob o pretexto de uma geopolítica distante, golpeiam diretamente o nosso agronegócio e, na ponta da linha, o bolso do povo brasileiro.
E no centro de toda essa tempestade, o que vemos? Um presidente que se mantém de pé. Um homem cuja biografia recente é um tratado sobre resiliência. Lula foi alvo de uma perseguição implacável, condenado em um processo questionável por um juiz que, despido da toga, não hesitou em assumir um cargo no governo de seu principal adversário político. Foi preso, humilhado e viu seu nome ser arrastado na lama.
Quantos de nós suportariam tal calvário e emergiriam dispostos ao diálogo? Quantos, depois de tamanha injustiça, voltariam ao poder sem o veneno do rancor, sem o desejo irrefreável da vingança? Lula voltou. E voltou não para um acerto de contas, mas com a obsessão de reconstruir pontes e, em suas próprias palavras, “colocar comida no prato do povo”.
É evidente que Lula não é perfeito. Nenhum líder o é, e a idealização é o primeiro passo para a decepção. Contudo, é preciso uma couraça de insensibilidade para não enxergar a dimensão humana e a grandeza política de alguém que, tendo todos os motivos para odiar, escolhe governar com a esperança de unir.
Quando me deparo com as críticas rasas, com a agressividade fantasiada de opinião, com a torcida explícita pelo “quanto pior, melhor”, a pergunta retorna, mais forte. Quando vejo o esforço para deslegitimar um governo cujo norte é a inclusão dos mais vulneráveis, questiono se a nação está à altura do líder que tem.
Talvez a resposta seja não. Talvez o Brasil, hoje tão viciado no conflito, não mereça a obstinação de Lula. Mas o fato mais comovente é que ele, com sua trajetória improvável e sua fé inabalável no potencial deste povo, insiste em acreditar que sim. E por essa crença, ele segue. Com as marcas que a vida lhe impôs, mas com a coragem de quem, mesmo ferido, nunca deixou de amar e lutar por este país. E essa, talvez, seja a sua maior e mais incompreendida força.





