
(Padre Carlos)
As palavras têm peso, sobretudo quando proferidas por figuras públicas. No caso de um senador da República, espera-se que a fala seja fruto de ponderação, lucidez e profundo compromisso com o interesse nacional. No entanto, o que vimos recentemente em declarações do senador Flávio Bolsonaro, ao comentar as tarifas impostas por Donald Trump aos produtos brasileiros, foi um espetáculo de submissão constrangedora, ausência de ética pública e uma vergonhosa falta de decoro.
Ao comparar a situação do Brasil com a do Japão na Segunda Guerra Mundial, evocando os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, Flávio não apenas demonstrou um total despreparo histórico e diplomático, mas também desrespeitou a memória de uma das maiores tragédias humanas do século XX. A analogia foi feita de forma fria, como se a destruição de centenas de milhares de vidas pudesse servir de exemplo para justificar a passividade do Brasil diante de agressões comerciais.
Mais do que uma infeliz escolha de palavras, a fala do senador revela um espírito antinacional, rendido à lógica imperial e alheio ao interesse soberano do país. Ao dizer que Trump “vai fazer o que quiser” e que o Brasil não pode “exigir nada”, o senador nega, com todas as letras, o papel estratégico do Estado brasileiro em negociações internacionais. É um gesto de resignação, de abdicação do dever constitucional de defender o povo que representa.
Na política externa, existe uma máxima: nenhum país respeita quem se ajoelha antes da negociação começar. E foi exatamente isso que Flávio Bolsonaro fez — rastejou verbalmente diante do governo de uma potência estrangeira, num gesto que em qualquer democracia madura seria entendido como quebra de decoro parlamentar e possível crime de responsabilidade política. O que se espera de um senador é resistência diplomática, firmeza argumentativa e defesa intransigente dos interesses nacionais, mesmo em momentos difíceis.
Ao referir-se à possível “queda de bombas atômicas no Brasil” como metáfora para o agravamento da crise econômica, o senador flerta perigosamente com o terrorismo simbólico, promovendo o medo como estratégia de convencimento. É a política do pânico, da chantagem emocional, da distorção dos fatos. Nenhuma dessas posturas condiz com a ética republicana ou com o patriotismo genuíno.
Ser patriota, senador, não é repetir jargões militares nem prestar continência a potências estrangeiras. Ser patriota é lutar pela soberania nacional, defender a indústria brasileira, proteger o trabalhador diante de ameaças externas. O Brasil precisa de líderes que dialoguem com o mundo de igual para igual, que respeitem a memória histórica e que não relativizem genocídios em nome de uma rendição covarde aos interesses de outros países.
As declarações de Flávio Bolsonaro não são apenas desastrosas; são inaceitáveis. Elas merecem o repúdio público, uma resposta institucional à altura e a cobrança ética dos pares do Senado. Porque quando um senador fala, não é apenas a sua voz que ecoa — é a imagem do país que está em jogo.




