
Por Padre Carlos
A política, idealmente, é o campo fértil onde ideias germinam em benefício do coletivo. Mas na prática, não raro, ela se transforma num terreno raso de vaidades, onde a necessidade de holofotes sobrepõe o compromisso com o bem comum. O recente avanço das obras de melhorias na BR-116, um clamor histórico da população de Vitória da Conquista, nos oferece um exemplo revelador de como, em vez de colaboração, muitos preferem a corrida pela paternidade da obra.
A rodovia que atravessa a cidade é uma ferida aberta há décadas: congestionamentos diários, acidentes frequentes e um entrave constante ao desenvolvimento local. Qualquer avanço nesse sentido, portanto, é mais do que bem-vindo – é urgente. E sim, os sinais vindos de Brasília apontam para progresso. Mas que fique claro: esse avanço não veio de mágica nem de discursos inflamados em redes sociais, e sim do esforço silencioso de quem arregaçou as mangas e percorreu os caminhos institucionais certos.
Vereadores, liderados pelo presidente da Câmara Municipal, estiveram no Ministério dos Transportes. O vice-prefeito, representando o Executivo local, também se fez presente em Brasília. Não estavam lá buscando autopromoção, mas cumprindo o papel que a população espera deles: defender os interesses da cidade. Sem estardalhaço, sem manchetes – com trabalho.
Mas, como num roteiro previsível, bastou o projeto ganhar tração para que surgissem os arautos do feito. Parlamentares distantes do cotidiano do município passaram a se apresentar como protagonistas do avanço. A visita que antes fora institucional e discreta passou a ser ofuscada por vídeos bem produzidos e posts celebratórios, como se um único gesto, uma assinatura ou uma ligação tivesse sido a força motriz da mudança.
Essa disputa por holofotes se agrava quando confrontada com os dados frios – e cruéis – do Tesouro Nacional. De 2021 a 2025, Vitória da Conquista recebeu menos recursos de emendas parlamentares do que municípios bem menores, como Jequié e Alagoinhas. Em relação a polos como Itabuna e Camaçari, a diferença é abissal: Camaçari ultrapassou R$ 101 milhões em emendas; Conquista não chegou a R$ 19 milhões. A pergunta inevitável: onde estavam essas mesmas vozes agora tão empenhadas em “comunicar” obras, quando a cidade era negligenciada no orçamento federal?
A resposta é simples – e incômoda. Muitas dessas figuras estavam ausentes, ou pior: estavam presentes em outras agendas, menos comprometidas com o município. Porque o verdadeiro trabalho político não se faz com flashes, mas com persistência, técnica, diálogo e, acima de tudo, compromisso contínuo. Não basta aparecer na hora da colheita: é preciso estar presente na semeadura, no cultivo e na irrigação constante da causa pública.
É claro que um projeto desse porte não pertence a um único ator. Ele tem muitos pais – e mães. A sociedade civil que não se cansa de reivindicar. A imprensa que denuncia, cobra e fiscaliza. Os técnicos que desenham soluções viáveis. E, sim, os políticos – todos eles, inclusive os que atuam nos bastidores – que articulam, pleiteiam e viabilizam recursos. Reduzir esse esforço coletivo a uma narrativa pessoal ou partidária é distorcer a verdade e insultar a inteligência do eleitorado.
Vitória da Conquista não precisa de heróis de ocasião, mas de representantes presentes, comprometidos e leais à cidade em todos os momentos – inclusive nos de silêncio. A história julga com lupa os fatos e seus verdadeiros protagonistas. Que cada cidadão saiba distinguir entre a ação concreta e o marketing político. Porque, no fim das contas, a fama pode ser fugaz – mas as obras, essas sim, permanecem. E a verdade também.




