Política e Resenha

ARTIGO – A serpente no ninho e o escorpião no colo (Padre Carlos)

 

 

Ah, os caminhos da política baiana… tortuosos como as veredas de Guimarães Rosa e surpreendentes como a velha história do escorpião — aquela mesma, do pobre sapo que acreditou no apelo do predador para atravessar o rio. “Prometo que não vou picar”. O final da fábula é conhecido, mas a esquerda insiste em recontá-la, como se pudesse, desta vez, mudar seu desfecho trágico.

A imagem circulando nas redes sociais — com direito a destaque para os votos dos deputados baianos no famigerado “PL da Devastação” — é um tapa de luva de pelica na coerência progressista. Deputados da base de Jerônimo Rodrigues, o petista do Planalto da Conquista, votaram alegremente a favor de um projeto que, se aprovado em definitivo, representa um retrocesso ambiental de proporções amazônicas. Literalmente.

E onde estava a indignação da esquerda? Talvez esteja em férias prolongadas nos salões refrigerados de Brasília ou nos camarotes das festas juninas da Bahia. Porque, convenhamos, quando se trata de proteger o meio ambiente, denunciar retrocessos e posar de herdeiros de Chico Mendes, os discursos são afiados. Mas na hora de votar, ah, na hora de votar…

Aqui entra a ironia da história: a direita, com todos os seus defeitos — e são muitos, como o próprio Reinaldo Azevedo já escreveu inúmeras vezes — pelo menos tem projeto. Um projeto duro, antipático, muitas vezes cruel, mas claro. Ela sabe o que quer e não negocia princípios por um cargo de terceiro escalão ou uma emenda de R$ 500 mil para calçamento de rua. Já a esquerda… essa parece que sofre de uma síndrome crônica de Síndrome de Estocolmo ideológica: apaixona-se pelos algozes, acolhe os adversários no colo e depois chora ao ser apunhalada.

Não se trata aqui de fazer apologia da pureza revolucionária. Não. Trata-se apenas de lembrar que alianças espúrias têm preço, e esse preço, na política, se paga com credibilidade — um bem escasso, ainda mais em tempos de redes sociais implacáveis.

É uma pena, sim. Porque a esquerda, ao invés de formar uma trincheira sólida, decide abrir alas para a serpente. Choca o ovo da contradição em seu ninho, acredita que vai domesticá-lo e, quando leva a picada, grita “traição!” como se não soubesse que escorpiões não mudam sua natureza.

Em tempo: não chore se houver mais um impeachment. Porque, como já dizia o próprio escorpião da fábula, antes de picar: “Está na minha natureza”.