
(Padre Carlos)
“Sinto-me humilhado.” Eis o lamento melancólico de Jair Bolsonaro, o ex-mito, agora exilado no próprio lar, com uma tornozeleira eletrônica adornando o tornozelo outrora altivo. Não é exagero dizer que a frase tem mais força simbólica do que qualquer discurso feito em frente ao espelho do Alvorada. Humilhado? Sim. Mas por quem? Pelo Supremo Tribunal Federal, pela Polícia Federal, por si mesmo ou pelos próprios aliados que, um a um, vão pulando da arca bolsonarista?
Humilhado, ele diz, ao ter que respeitar toque de recolher e manter distância de diplomatas — inclusive do próprio filho Eduardo, aquele mesmo que jurou amor à bandeira dos Estados Unidos. Humilhado ao ver seus dólares (sim, dólares no banheiro, como se fossem sabonetes de luxo) virarem manchete, enquanto uma inocente pen drive aguarda sua vez de virar novela. Ora, quem nunca guardou 14 mil dólares no banheiro e uma pen drive entre os produtos de higiene pessoal, que atire a primeira pedra.
A defesa, previsivelmente, não gostou. Surpresa! Indignação! Bolsonaro sempre colaborou com a Justiça, dizem. Tão colaborativo que pensava até em visitar Donald Trump antes que algum imprevisto o impedisse de embarcar. Nada mais justo, já que a afinidade entre os dois ultrapassa o idioma e as urnas: compartilham do mesmo receituário político, da mesma aversão a instituições fortes e da mesma dificuldade de aceitar derrotas.
O uso da pulseira eletrônica não é um mero capricho judicial. É um marco. É o símbolo do fim de uma era — ou pelo menos, o início do fim. Bolsonaro não é mais o líder impávido que confrontava jornalistas, ministros e governadores com bravatas e lives. Hoje é um réu simbólico, envolto em medidas cautelares e suspeitas. Se um dia carregou a faixa presidencial com orgulho, agora carrega um dispositivo no tornozelo — e, nos ombros, o peso das consequências.
Mas claro, como em toda tragédia à brasileira, há quem enxergue um exagero. Um espetáculo político, dizem. Uma encenação para a plateia da democracia. Será? Talvez. Mas o palco onde se desenrola essa peça tem nome e endereço: Brasil. E o enredo, ainda que com elementos farsescos, é real. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não foi teatro. Foi o auge de uma trama malsucedida de ruptura institucional. E quando há golpe, há golpistas. E quando há golpistas, há — ou deveria haver — Justiça.
A pergunta que fica, contudo, não é se Bolsonaro está sendo humilhado. É: que país é esse que permitiu que chegássemos até aqui? A democracia brasileira, resiliente como sempre, vai mostrando que sabe se defender. Mas que custa caro, custa. Custa credibilidade, custa paciência, custa conviver com a eterna polarização. Custa ver o país dividido entre quem torce pela prisão e quem chora pelo mito.
No fim, talvez a humilhação seja, paradoxalmente, o início da redenção — para Bolsonaro, se ele aceitar os erros, e para o Brasil, se souber aprender com eles. A tornozeleira, metáfora silenciosa da Justiça, não fala. Mas diz muito. E nos lembra: o poder passa. A lei, fica.




