Dizia Mario Quintana, com a leveza de quem escreve com a alma:
“O menino que fui chora na estrada. O homem que sou o consola…”
E é nessa estrada, tantas vezes asfaltada de lembranças e poeira do tempo, que hoje me vejo buscando… meus brinquedos.
Não me refiro aos objetos em si — piões de madeira, bolas de meia, o cavalinho manco de pau que galopava sobre o chão de terra batida da rua de casa. Falo daquilo que eles carregavam: a fantasia do menino que acredita que tudo é possível, que constrói castelos de areia com mais fé que muito arquiteto moderno.
Eu quero os meus brinquedos.
Quero de volta aquele tempo em que a tarde era infinita, o céu parecia mais azul e as dores tinham cura com um beijo de mãe. Hoje, o tempo corre apressado. Ontem é um vulto. Amanhã é uma inquietação. Mas a infância… ah, essa mora numa caixinha trancada dentro da memória, onde moram também os cheiros, os risos e os silêncios daquele tempo.
Não se trata de nostalgia barata. Trata-se de gratidão.
Gratidão por ter vivido num tempo em que a felicidade não dependia de wi-fi, nem de curtidas. Dependia de um amigo pra brincar, de uma goiabeira no quintal, de um fim de tarde de chuva e banho de biqueira.
O poeta sabia:
“A vida é feita de nadas. Pequenas coisas que o tempo transforma em eternidades.”
E foi assim que os brinquedos da minha infância viraram eternidade. Estão lá, numa prateleira do coração, ao lado das vozes que o tempo não conseguiu calar, das brincadeiras que ninguém mais entende, dos medos bobos e das alegrias sinceras.
Hoje, escrevo não só como homem, pai e cronista.
Escrevo como aquele menino que um dia fui, e que de vez em quando bate à porta da alma dizendo:
“Eu quero os meus brinquedos.”
E você?
Onde guardou os seus?





