Política e Resenha

ARTIGO – Quando um deputado brinca com fogo (Padre Carlos)

 

 

Há palavras que não apenas denunciam o pensamento de quem as profere, mas que expõem perigosamente toda a estrutura que essa pessoa representa. Foi o que ocorreu com a fala do deputado federal Coronel Chrisóstomo, vice-líder da oposição na Câmara dos Deputados, ao comentar a mais recente operação da Polícia Federal que atingiu o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em um arroubo retórico, o deputado pediu que as Forças Armadas “atuem em favor do povo brasileiro” e, como se não bastasse, traçou paralelos com 1964 — o ano em que o país mergulhou num regime de exceção.

É preciso dizer com todas as letras: essa fala não é apenas irresponsável. Ela é perigosa, comprometedora e, sobretudo, reveladora. Compromete o próprio deputado, que demonstra não compreender os fundamentos da Constituição que rege o país. Compromete a oposição como um todo, que vê seu líder direto (ou melhor, seu vice-líder formal e porta-voz mais exaltado) insuflar a quebra da ordem institucional. E compromete ainda mais o campo bolsonarista, que, no desespero diante do cerco jurídico, volta a flertar com a ruptura democrática.

Ao dizer que “o povo brasileiro não aceita isso”, o deputado presume falar por todos. Não fala. Fala, no máximo, por uma fração cada vez mais minoritária da população que ainda insiste em ler ações legais — com ordem judicial, provas e ritos — como “perseguição política”. E ao convocar Forças Armadas e imprensa para “intervir”, resgata um vocabulário de quartel que deveria ter sido sepultado junto com a ditadura militar.

Invocar 1964 é mais do que nostalgia revisionista: é sinal de que há setores que ainda sonham com tanques nas ruas, censura nas redações e silêncio nos plenários. O Brasil não quer — e não pode — voltar a esse passado. A fala do deputado insinua que o Judiciário se comporta como “uma autoridade única”, anulando atos do Legislativo. Ora, essa é justamente a função constitucional do Supremo Tribunal Federal: avaliar a constitucionalidade dos atos dos demais Poderes. Esse sistema de freios e contrapesos existe para evitar os excessos — inclusive os cometidos por parlamentares que se esquecem que não estão acima da lei.

A oposição precisa fazer uma escolha histórica: quer ser relevante no jogo democrático, apresentando projetos, críticas e alternativas legítimas, ou quer se perder no discurso inflamado, militarizado e conspiratório? Porque cada vez que um de seus líderes invoca 1964, a Constituição chora e a democracia se retrai.

E a quem ainda se pergunta se essa fala traz consequências reais, a resposta é clara: sim, traz. Porque palavras têm peso, têm destinatários, têm consequências jurídicas e políticas. E quando saem da boca de um deputado, ainda mais um com função de liderança na oposição, reverberam como ecos de um país dividido entre a razão e a ruptura.

O povo brasileiro quer justiça, não ruptura. Quer responsabilidade, não bravatas. E quer líderes que respeitem o voto — mas também as instituições que garantem que esse voto seja soberano.