
(Padre Carlos)
O que estamos presenciando, neste julho tenso de 2025, não é apenas mais um capítulo na relação conturbada entre Brasil e Estados Unidos. É a configuração de um xadrez geopolítico e institucional no qual cada peça, seja do Executivo, do Judiciário ou da oposição, move-se com cálculos frios — e muitas vezes com motivações que ultrapassam o interesse nacional.
O governo do presidente Lula, sob a batuta de Fernando Haddad, optou pela contenção estratégica. Não há bravatas, nem retaliações midiáticas. Há, no lugar disso, um esforço diplomático ancorado na legitimidade dos fóruns multilaterais, como a OMC. O discurso é racional: o Brasil “não sairá da mesa de negociação”. Mas nos bastidores, a AGU age com precisão cirúrgica, acendendo um sinal vermelho no Supremo Tribunal Federal sobre possíveis crimes de insider trading. Ou seja, a crise é comercial na superfície, mas nos subterrâneos, pode ser criminal.
Enquanto isso, a oposição bolsonarista decidiu apostar tudo na retórica do confronto. A visita de Jair Bolsonaro à Câmara dos Deputados, cercado por aliados, foi um ato simbólico de retorno político — mas também um desafio institucional direto. Os gritos por impeachment de Alexandre de Moraes, as lives inflamadas de Eduardo Bolsonaro e a tentativa de driblar decisões judiciais usando redes sociais alheias revelam um projeto de poder que não reconhece mais as mediações democráticas. Trata-se de um embate direto com as instituições.
No centro dessa guerra de narrativas está o Judiciário, acuado e atacado, mas também endurecido. Alexandre de Moraes, como uma esfinge constitucional, mantém a proibição do uso de redes por Bolsonaro, e responde com silêncios que falam alto. Ao seu lado, juristas de peso como Celso de Mello e entidades como a OAB dão um passo à frente para defender o sistema de freios e contrapesos, mesmo diante da pressão externa das sanções americanas — que, aliás, são vistas como uma afronta à soberania brasileira.
A economia, curiosamente, parece operar sob outra lógica. A inflação de 2025 continua em queda, demonstrando que, ao menos até aqui, o mercado mantém uma fé cega no pragmatismo do Ministério da Fazenda. É como se o Brasil real andasse de mãos dadas com o Brasil simbólico — mas em direções opostas.
Tudo isso ocorre sob a sombra da morte de Preta Gil, que nos lembra que, mesmo em tempos de crise, há espaços para a humanidade, para a memória e para a luta por causas que transcendem o poder.
O cenário é de confronto em múltiplas frentes. Mas, mais do que uma guerra de posições, vivemos uma batalha de significados. O que está em disputa não é apenas o controle institucional, mas a alma da democracia brasileira. Quem tem a narrativa, tem o poder. E neste momento, todos tentam escrever sua versão da história — seja com a caneta da lei, com o megafone das redes ou com as tarifas de um presidente estrangeiro.
Cabe ao povo brasileiro — não às elites, nem aos algoritmos — decidir qual dessas histórias será contada amanhã.




