
(Padre Carlos)
É uma cena comum, quase automática: o dedo gira o botão do rádio e os alto-falantes se enchem de vozes que não nos pertencem. É como abrir a janela pela manhã e, em vez do cheiro de café e do barulho dos ônibus subindo o Morada dos Pássaros, sentir o cheiro do mar de Copacabana ou ouvir o ronco dos carros na Marginal Tietê. A sensação é a de viver numa cidade ausente, de estar em Vitória da Conquista, mas ser bombardeado por uma trilha sonora que desconhece nossos passos, nossas esquinas, nossos artistas. Essa sensação de exílio simbólico é o que a Lei Evandro Correia vem desafiar. Uma proposta legislativa que não é apenas sobre música — é sobre pertencimento.
Identidade em Freqüência Modulada
Rádio é memória em tempo real. É o retrato sonoro de uma sociedade. E, sendo concessão pública, deveria cumprir sua função de espelhar a diversidade da comunidade que a acolhe e sustenta. No entanto, as rádios comerciais têm se transformado em reprodutoras de um mesmo padrão cultural, empacotado e distribuído a partir dos grandes centros. O que se ouve nas ondas do rádio de Conquista não é a voz de Conquista. É como se vivêssemos em uma terra sem sotaque, sem canções próprias, sem vozes locais.
O reconhecimento da cultura regional através da radiodifusão não é apenas simbólico — é essencial. Uma rádio que toca nossos cantores, nossos poetas, nossos ritmos é uma rádio que diz, com todas as letras: nós existimos. E quando uma cidade se ouve, ela se afirma. A rádio comunitária não pode ser apenas um espaço marginalizado no espectro das frequências — ela deve ser referência de identidade.
Uma Cadeia que Gira com Música
Mas o rádio também movimenta engrenagens que vão além do simbólico. A economia criativa depende de visibilidade, de circulação, de espaço. Um artista local que tem suas músicas tocadas no rádio agenda mais shows, atrai mais público, vende mais CDs, movimenta estúdios, contrata técnicos, paga designers, sustenta famílias. É a produção local ganhando oxigênio. É o talento da terra produzindo riqueza onde foi semeado.
A Lei Evandro Correia não propõe uma reserva de mercado — ela propõe um investimento inteligente. Ao garantir espaço mínimo para a música local nas rádios, a lei injeta dinamismo em toda uma cadeia produtiva que, historicamente, vive à margem. Trata-se de transformar artistas em empreendedores culturais. De criar um ciclo virtuoso onde a arte gera renda, e a renda alimenta a arte.
Liberdade com Responsabilidade Pública
Haverá quem levante o estandarte da “liberdade de programação”. É legítimo. Mas é preciso recordar que a liberdade numa concessão pública não é absoluta. Ela vem acompanhada de obrigações sociais. Assim como a televisão tem cotas para conteúdo nacional, e o cinema sobrevive graças às políticas de proteção cultural, o rádio também deve responder a um projeto de país — e de cidade.
Não se trata de censurar gostos ou limitar escolhas. Trata-se de corrigir um desequilíbrio histórico que impede a circulação daquilo que é nosso. A regulação, nesse caso, é ferramenta de justiça cultural. É dar espaço ao que já deveria estar presente. É fazer valer o interesse público sobre os algoritmos de mercado.
Por Uma Conquista que Se Ouve
A aprovação da Lei Evandro Correia é, antes de tudo, um ato de coragem política. É declarar que Vitória da Conquista não aceita mais ser coadjuvante em sua própria trilha sonora. É reconhecer que os sons que nos definem merecem estar no ar — ecoando nas rádios, atravessando bairros, emocionando ouvintes, formando identidade.
Que a Câmara Municipal esteja à altura desse gesto. Que os ouvintes se tornem cidadãos ativos na defesa de sua cultura. Que os artistas encontrem, enfim, o canal aberto para tocar não só em palcos, mas em corações. A rádio, essa velha companheira, pode voltar a ser o que sempre foi: um lugar de encontro.
Porque uma cidade que se ouve é uma cidade que se reconhece. E só se reconhecendo, pode verdadeiramente crescer.




