(Padre Carlos)
Feche os olhos e pense em Maria Madalena. Qual a primeira imagem que sua mente projeta? Para séculos de cristãos, a resposta seria a da prostituta arrependida, a pecadora redimida aos pés de Cristo. Uma imagem poderosa, sim, mas fundamentalmente falsa. Uma calúnia teológica que serviu, por quase dois milênios, para ofuscar a verdade registrada nos próprios Evangelhos. A verdade de que Maria de Magdala foi, nas palavras da própria Igreja hoje, a “Apóstola dos Apóstolos”.
Celebrar a sua festa, no dia 22 de julho, é mais do que uma obrigação litúrgica; é um ato de justiça. É um convite para que nos perguntemos: como a testemunha mais importante da Ressurreição foi transformada na figura mais desprezada e mistificada da história cristã?
Para entender, é preciso voltar à cena mais sombria e mais sagrada de nossa fé. Quando o medo dispersou os discípulos homens, os Evangelhos são explícitos: as mulheres permaneceram. Ao pé da cruz, de longe, mas presentes, elas velavam. Eram elas, lideradas por Maria de Magdala, que não abandonaram seu Mestre na hora da agonia.
E foram elas, as fiéis, que, passado o sábado, moveram-se na madrugada para cuidar do corpo. É no túmulo vazio que a lealdade de Madalena é recompensada. Ela é a primeira a ver, a primeira a ouvir, a primeira a receber a missão mais importante da história: “Vá e anuncie aos meus irmãos”. Ela, uma mulher, foi a escolhida para anunciar aos homens que o Cristo estava vivo. Ela foi a primeira evangelista.
Como, então, essa figura central foi relegada à margem, sua identidade fundida à de outras mulheres e sua liderança reescrita como um conto de pecado e perdão? A resposta, dolorosa, reside na ascensão de uma estrutura patriarcal que, desconfortável com o poder feminino, precisava diminuir a mais poderosa das discípulas. Para justificar a exclusão das mulheres do sacerdócio e da liderança, foi preciso transformar a Apóstola em prostituta. Foi preciso apagar a líder para criar um mito de submissão.
A história de Maria de Magdala, portanto, se conecta à história de todas as mulheres cujas vozes foram silenciadas, cuja competência foi questionada e cuja liderança foi temida.
Felizmente, a verdade, como o corpo de Cristo, não pode ser contida em um túmulo para sempre. O gesto do Papa Francisco, em 2016, ao elevar sua celebração à categoria de Festa, foi um ato monumental de reparação. Foi a Igreja, em sua mais alta instância, começando a corrigir um erro histórico e a reconhecer o óbvio: Maria de Magdala não era a pecadora anônima, mas a amiga fiel, a discípula perspicaz, a líder da primeira comunidade e a testemunha ocular que fundou a nossa fé na Ressurreição.
Celebrar a festa de Maria de Magdala, hoje, é celebrar a ressurreição da verdade. É pedir perdão pela calúnia e, finalmente, com dois mil anos de atraso, silenciar para ouvir, com respeito e gratidão, a voz da primeira e mais corajosa das apóstolas.





