
(Padre Carlos)
Eu não consigo mais naturalizar o que virou cotidiano no Brasil: a violência contra a mulher. Cada vez que leio os dados, que escuto os relatos, que vejo os rostos — ou que noto os silêncios — sinto que temos fracassado como sociedade. Quando um jurista amigo afirmou que “mais de 28 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses”, eu parei. Respirei fundo. E me perguntei: como conseguimos seguir em frente como se isso fosse apenas mais uma estatística?
A Lei Maria da Penha, para mim, não é apenas uma norma jurídica. É um grito de socorro que virou lei. Uma lei que tenta responder à dor de mulheres que, durante décadas — séculos! — foram caladas, culpabilizadas, ignoradas. É uma legislação que protege, mas também educa. Que pune, mas também previne. Que salva vidas, quando é bem aplicada.
Eu já ouvi muitas vezes aquela velha cantilena: “E os homens? Não deveriam ter uma ‘Lei João da Penha’?”. Me perdoem, mas essa comparação é injusta e, francamente, desonesta. Os homens, nós homens, já temos a estrutura da lei ao nosso favor desde sempre. Temos privilégios históricos, sociais, simbólicos. A Lei Maria da Penha não nos ameaça — ela corrige um desequilíbrio brutal que naturalizamos por tempo demais.
Quando este profissional do Direito e da Justiça me falou que a lei não oprime os homens, ele não estava fazendo um discurso ideológico. Ele estava fazendo um apelo à razão. Ele estava dizendo o óbvio que muitos não querem ouvir: as mulheres ainda vivem sob risco, dentro de suas próprias casas. E isso precisa parar. E só vai parar se homens também deixarem de se sentir ameaçados pela ideia de justiça.
A Maria da Penha — mulher, cidadã, vítima de uma tentativa de feminicídio brutal — virou símbolo porque teve coragem de não se calar. Mas quantas Marias existem ao nosso redor que ainda não conseguiram falar? Quantas têm medo, vergonha, culpa? Quantas continuam vivendo com seus agressores porque não têm para onde ir? Por isso, eu digo: a lei é necessária, é urgente, é civilizatória.
Sei que há quem diga que a lei é dura. Que às vezes é usada de forma injusta. Pode ser. Nenhuma legislação é perfeita. Mas me dói mais saber que, mesmo com todos os mecanismos legais disponíveis, ainda estamos perdendo mulheres para o feminicídio, para o suicídio, para a depressão causada por anos de abuso.
Não, não precisamos de uma “Lei João da Penha”. Precisamos, sim, de consciência. Precisamos olhar para nossas filhas, esposas, mães, amigas — e garantir a elas o mínimo: dignidade, segurança, autonomia.
Como homem, como pai, como irmão, como cidadão e como padre-casado, eu digo: é nosso dever defender essa lei. Não por ideologia, mas por humanidade.
E, se isso ainda não for suficiente para comover, que ao menos nos reste a vergonha. Porque uma sociedade que falha com suas mulheres, falha com seu próprio futuro.




