Política e Resenha

ARTIGO – A tragédia anunciada e o adeus a um jovem promissor

 

(Padre Carlos)

Não há palavras que deem conta da dor de perder um filho, um amigo, um profissional jovem, ético e cheio de futuro. O que houve na BA-262, nesta terça-feira, não foi um acidente. Foi um crime por omissão. Um assassinato lento, que se arrasta há anos no concreto silencioso de um pilar esquecido — ou melhor, ignorado — entre Iguaí e Nova Canaã.

Marcus Aurélio Filho não foi apenas mais uma vítima. Foi um homem amado, conhecido pela generosidade no trato e pela competência no ofício. Em Vitória da Conquista, onde atendia com zelo e humanidade, sua morte provocou uma comoção legítima. Porque era daqueles que somavam, daqueles que levantam a cidade com o sorriso dos outros.

Mas eis que, de forma abrupta, esse sorriso foi esmagado pelo descaso. O famigerado “Pilar da Morte” voltou a cobrar o seu preço. E mais uma vez, autoridades calam-se, como se não tivessem sido advertidas, como se não soubessem do risco, como se os clamores da população fossem apenas ruído. Não são. São gritos de socorro.

Há anos a população denuncia: aquele obstáculo no meio da pista — sem sinalização, após uma curva traiçoeira — é um convite à morte. Em 2022, reportagens já mostravam o perigo. De lá para cá, nada. Nenhuma intervenção. Nenhum desvio. Nenhum gesto mínimo de humanidade por parte do Estado.

É preciso nomear as coisas como são. O pilar é símbolo de uma engenharia assassina e de uma gestão que não prioriza a vida. É a materialização da negligência. E a cada nova vítima, ele se torna também um monumento à vergonha.

Diante da tragédia, é hora de consolar. Mas também de gritar. Não se pode naturalizar a morte de um jovem como Marcus. Que o luto da família seja respeitado com orações, solidariedade e carinho. Mas que a sociedade transforme a dor em exigência. O próximo pode ser qualquer um.

Não há mais espaço para silêncios. A BA-262 precisa de reparo, de reforma, de atenção. Não basta pintar faixas ou colocar placas. É preciso agir com responsabilidade.

Marcus se foi, mas seu legado — de profissionalismo, alegria e cuidado com o outro — precisa ecoar em atos concretos. Que a sua morte seja a última. Que seu nome não se perca nas estatísticas.

E que esse país aprenda, um dia, a não esperar que o sangue clame por aquilo que a consciência deveria exigir.