
Padre Carlos
Ninguém está preparado para perder um filho. Por mais que o espírito se fortaleça e a fé seja alicerce, a morte de um filho desmonta qualquer estrutura. Porque a vida, como aprendemos, deveria seguir uma ordem: os filhos enterram os pais, não o contrário.
Quando um pai ou uma mãe se vê diante do caixão de um filho, é como se o mundo desabasse em silêncio. As palavras não bastam, os consolos parecem vãos. Tudo que resta é o vazio — um buraco existencial que não se preenche com nada, apenas com lembranças.
Há, no entanto, um amor tão grande que, em alguns casos, é capaz de permitir a partida. É o amor que se eleva acima do próprio egoísmo, que reconhece o sofrimento do filho e, com lágrimas nos olhos, diz: “Vai, meu filho, vai em paz”. Esse é o amor que transcende, que se desprende, que se sacrifica.
Mas a ausência não tem piedade. Ela nos atinge nos pequenos detalhes: no prato vazio à mesa, no quarto em silêncio, nas roupas ainda penduradas, no cheiro que insiste em ficar. A fé então precisa ser mais do que um conceito. Ela precisa se tornar sustento. Sem ela, pais se perdem na própria dor.
A cada dia, ao acordar, a alma pergunta: “Como posso viver sem ele?”. E a resposta não vem dos homens, nem dos livros — ela vem do Mistério, do invisível, do amor que, mesmo depois da morte, continua existindo. Porque quem ama nunca deixa de amar. Mesmo que o outro esteja do lado de lá.
O poeta não exagerou quando escreveu: “Ô pedaço de mim, ô metade arrancada de mim…” — perder um filho é perder uma parte do próprio corpo. É andar com uma ausência que pesa mais do que qualquer presença.
E mesmo assim, tantos pais seguem. Não por terem superado, mas por terem decidido transformar a dor em saudade, e a saudade em oração.




