Por um articulista que ainda acredita na justiça, mesmo quando ela chega de chinelos
Ah, queridos leitores, que deliciosa reviravolta nos oferece o destino nesta terça-feira ensolarada! A deputada Carla Zambelli, aquela mesma que transformou o parlamento brasileiro numa extensão de seus dramas pessoais, foi finalmente encontrada pela polícia italiana. E onde? Num apartamento em Roma, cidade eterna que já viu tantos imperadores caírem, mas certamente nunca presenciou uma comédia de erros tão brasileira quanto esta.
A Fuga que Virou Armadilha
Imaginem a cena, meus caros: nossa protagonista, condenada a dez anos de prisão pelo STF por envolvimento na invasão hacker do sistema do CNJ – porque, convenhamos, hackear o Conselho Nacional de Justiça parece mesmo coisa de quem respeita profundamente as instituições -, decidiu que a melhor defesa seria… fugir. Primeiro para os Estados Unidos, depois para a Itália. Uma espécie de grand tour às avessas, onde em vez de buscar cultura, buscava-se impunidade.
Mas eis que surge na história um personagem que nem o mais criativo roteirista de novela das oito ousaria inventar: o deputado italiano Angelo Bonelli. Este senhor, movido por um senso de justiça que parece ter se perdido em algumas latitudes tropicais, simplesmente entregou o endereço da fugitiva à polícia. No Twitter, com a naturalidade de quem compartilha a receita do molho de tomate da nonna, ele anunciou: “Forneci o endereço à polícia.”
A Ironia Refinada do Destino
Há algo profundamente poético nesta história. Zambelli, que tanto criticou a “perseguição política” no Brasil, descobriu que na Itália – berço do Direito Romano, diga-se de passagem – a justiça funciona com uma eficiência quase germânica. A mesma mulher que questionava a lisura das instituições brasileiras agora se vê nas mãos da Interpol, essa organização internacional que, ao contrário de certas narrativas conspiratórias, de fato existe e funciona.
O mais tocante desta saga é perceber como o tempo, esse escultor implacável de destinos, foi moldando cada peça deste quebra-cabeças. Enquanto Zambelli acreditava estar escrevendo sua própria história de redenção internacional, o roteiro já estava sendo escrito por mãos mais experientes: as da Justiça.
Agora, enquanto aguardamos os trâmites da extradição – porque até os procedimentos burocráticos têm sua beleza quando servem à causa maior -, podemos refletir sobre as lições desta pequena odisseia moderna. Primeiro: não existe lugar no mundo onde se possa fugir de si mesmo. Segundo: a tecnologia que permite hackear sistemas também permite ser rastreado. Terceiro: deputados italianos, ao contrário do que alguns possam imaginar, não estão necessariamente dispostos a proteger foragidos estrangeiros.
O Eco da Responsabilidade
Há quem diga que esta prisão representa uma vitória do Estado de Direito. Eu prefiro vê-la como um lembrete melancólico de que, no final das contas, todos nós – políticos, cidadãos, sonhadores e fujões – estamos sujeitos às mesmas leis universais. A gravidade, por exemplo, que puxa tudo para baixo. E a justiça, que mais cedo ou mais tarde encontra seu caminho.
Carla Zambelli agora terá tempo – muito tempo, diga-se – para refletir sobre as escolhas que a trouxeram até aqui. Talvez, no silêncio de uma cela, ela possa finalmente ouvir o que o Brasil tentava lhe dizer há tanto tempo: que a democracia não é um jogo onde se pode trapacear impunemente.
E nós, espectadores desta tragicomédia brasileira, ficamos com a lição de que às vezes a realidade supera a ficção não pelo drama, mas pela pura e simples ironia. Porque só mesmo no Brasil uma deputada federal fugiria para Roma e seria entregue por um colega parlamentar italiano via rede social.
Se não rirmos, choramos. E hoje, confesso, estou mais para dar uma risadinha.
O autor deste artigo acredita piamente que a justiça, como o amor e a pizza italiana, sempre encontra seu caminho – mesmo que demore um pouco para chegar.





