
A notícia de que Luiz Fux trocava mensagens com Jair Bolsonaro, revelada pela Polícia Federal a partir da varredura do celular do ex-presidente, não chega a ser uma bomba — mas, sem dúvida, tem cheiro de pólvora. Para quem acompanhou o comportamento errático de parte do Supremo Tribunal Federal nos últimos anos, o fato de um ministro da Corte estar incluído na lista de transmissão pessoal do ex-presidente inelegível é, no mínimo, constrangedor.
Se Fux respondeu ou não, já pouco importa. O simples fato de estar ali — no mailing pessoal de Bolsonaro, a dois dias de uma operação da PF — já diz muito sobre os bastidores da política institucional brasileira. Não se coloca um ministro do Supremo na lista de transmissão de WhatsApp à toa. Isso é relacionamento, é afinidade, é código de confiança.
A imprensa, sempre cuidadosa com os nomes togados, usou de eufemismo: “o ministro não respondeu às mensagens”. Mas o silêncio também fala. E o silêncio de Fux, diante de um país em processo de cicatrização democrática, grita. Grita, principalmente, quando se observa sua postura reiterada em julgamentos que favorecem Bolsonaro. Foi o único da Primeira Turma a se opor à tornozeleira eletrônica. Foi complacente na dosimetria de penas simbólicas a bolsonaristas. Foi poupado pelas retaliações norte-americanas que atingiram seus pares.
Essa condescendência acumulada começa a desenhar uma caricatura de imparcialidade. Não se trata de delírio conspiratório, mas da pura constatação de padrões. Fux, que já havia aparecido como um aliado informal da Lava-Jato, agora emerge como o terceiro pilar silencioso do bolsonarismo togado — ao lado de figuras como André Mendonça e Nunes Marques, abertamente alinhadas.
É importante notar o contexto político mais amplo: a escalada autoritária de Bolsonaro não foi um ato isolado. Foi, em partes, permitida, alimentada, legitimada. E muitas vezes, foi até ignorada por quem deveria funcionar como contrapeso constitucional. A omissão também constrói. A omissão também é escolha.
A descoberta das mensagens não é, isoladamente, um escândalo. Mas, dentro do cenário em que foi revelada — uma investigação federal, com arquivos recuperados por software forense, às vésperas de ações judiciais cruciais — passa a compor um quadro de cumplicidade velada. É o silêncio institucional que constrange, que compromete, que desgasta.
E quanto ao papel de Michel Temer? Cumpriu o script que a história parece lhe reservar: o de articular, mas nunca resolver. Um conciliador de ocasião, um roteirista da carta de desculpas de Bolsonaro após xingar Alexandre de Moraes em praça pública. Temer foi a ponte de papel entre a afronta e a falsa conciliação. Nada mais simbólico do que isso.
Ao fim, a revelação da lista de contatos de Bolsonaro serve menos para revelar o que foi dito e mais para expor quem estava disponível para ouvir. E, diante disso, cabe uma pergunta inquietante: até que ponto a toga tem resistido ao apelo do poder?
“Em Fux we don’t trust” não é apenas uma frase de efeito — é um aviso. A democracia brasileira não pode mais bancar a ingenuidade. Não há espaço para ministros que flertam com o bolsonarismo, ainda que por mensagens apagadas.




