
(Padre Carlos)
Disseram certa vez a Rubem Alves, com aquele ar de cansaço existencial tão comum em nossos dias: “A vida é uma causa perdida?”. E ele, com a delicadeza dos que sabem ler a alma humana, respondeu: “Ela é perdida no sentido de que a gente vai morrer. Mas até lá, ela é um desafio, é uma aventura, e está cheia de uma coisa maravilhosa”.
Há quem veja nessa resposta apenas um consolo poético, uma distração filosófica diante da tragédia inevitável da morte. Mas quem vive com atenção sabe que ali há mais que palavras: há sabedoria. E essa sabedoria nos diz que o valor da vida não está em sua duração, mas em sua densidade. Não se mede a existência por anos, mas por instantes de lucidez, alegria e gratidão.
Guimarães Rosa, com aquela sagacidade sertaneja disfarçada de prosa mágica, dizia que a alegria só vem em raros momentos de distração. Não é ironia: é realidade. A alegria nos surpreende quando deixamos de esperar por ela, quando abrimos a guarda da mente preocupada e permitimos que o cotidiano nos abrace com sua ternura escondida.
A felicidade — essa palavra inflacionada pelas redes sociais, pelo marketing de autoajuda e pelas promessas de plenitude eterna — é, como diria Rubem, uma ideia velha. Não porque perdeu o valor, mas porque foi mal interpretada. Não há felicidade contínua, estável, perene. O que existe são lampejos de alegria, pequenas epifanias que nos atravessam nos momentos mais banais.
Bertolt Brecht entendeu isso ao escrever um poema para lembrar a si mesmo das coisas boas da vida. Não falou de viagens internacionais, nem de prêmios, nem de fama. Falou do calor das cobertas numa manhã fria. Do prazer de um banho quente. E, com honestidade cômica, do alívio de fazer xixi.
Parece pouco? Não é. É muito. É quase tudo. Porque esses momentos são os que nos reconectam com a inteireza da existência.
No filme Cidade dos Anjos, há uma cena comovente em que um anjo renuncia à imortalidade para sentir o prazer de ser humano. O primeiro gesto dele? Tomar um banho quente. E sorri. Não pelo banho em si, mas porque, naquele instante, ele entendeu o que é viver: sentir, estar, experimentar.
A vida, portanto, não é uma causa perdida. Ela é uma causa viva. Perdê-la seria não perceber o quanto somos privilegiados por poder, ainda hoje, agora, sentir. Ouvir, tocar, andar, amar. Respirar. É ouvir do oncologista que tá tudo bem e que ele só vai querer me vê daqui a seis meses.
É preciso uma vigilância do coração para não deixar passar esses momentos. Porque a alegria — essa danada que chega de mansinho — só é percebida por aqueles que estão atentos. Não a atenção dos que controlam, mas a dos que se entregam.
Talvez o maior desafio da vida não seja vencer, mas prestar atenção. E nesse prestar atenção, descobrir que ela não é uma causa perdida. Ao contrário, é uma causa cheia de pequenos milagres. Milagres que se chamam banho quente, coberta quentinha, beijo inesperado, café fresco, silêncio no fim do dia.
No fim, como dizia Rubem Alves: “As coisas essenciais da vida a gente encontra a cada momento, se a gente souber prestar atenção”.




