Política e Resenha

ARTIGO – Tudo Passa, Só Deus Permanece

 

(Padre Carlos)

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” – Este grito do Eclesiastes ecoa com força neste XVIII Domingo do Tempo Comum. Diante de um mundo que idolatra o acúmulo, o poder e a aparência, a Liturgia nos convida a um olhar profundo, corajoso e, sobretudo, libertador: tudo passa, só Deus permanece.

A primeira leitura, tirada do Eclesiastes, é um verdadeiro manifesto existencial. Escrito em um tempo de dominação e exploração, quando a Palestina gemia sob o jugo do Império Grego, o texto é um sopro de lucidez. O autor observa a vida marcada por um trabalho exaustivo, alienado e sem sentido. Homens e mulheres se tornaram engrenagens de um sistema que suga até a alma. O sábio pergunta: para quê tudo isso, se ao fim, tudo escorre pelos dedos como areia? Se tudo que acumulamos ficará para outros? Sua resposta não vem de fórmulas fáceis, mas da busca sincera: a verdadeira felicidade está em Deus. E somente n’Ele.

Na segunda leitura, São Paulo nos aponta um caminho luminoso: “Buscai as coisas do alto”. Não se trata de fuga do mundo, mas de dar a ele o verdadeiro valor. Quando nossas escolhas são iluminadas pela eternidade, encontramos sentido até nas pequenas coisas. Paulo nos convida a revestir-nos do Homem Novo, aquele que vive segundo a verdade, a justiça, a bondade. A fé cristã não nos retira do mundo, mas nos mergulha nele com os olhos de Deus. E ver com os olhos de Deus é perceber que cada ser humano é um sacramento da eternidade.

No Evangelho, Jesus desmascara com ousadia a ilusão das riquezas. A parábola do homem que encheu celeiros e morreu na mesma noite é um tapa na lógica do acúmulo. O alerta de Jesus é claro: não sejamos ricos apenas para nós mesmos, mas ricos para Deus. A riqueza que não se reparte torna-se condenação. E a partilha não é apenas um ato moral, mas uma exigência da vida plena.

É impressionante como a sabedoria do Evangelho encontra eco na voz do velho Tupinambá, relatada por Jean de Léry no século XVI. O indígena, com simplicidade e profundidade, percebe o absurdo da ganância europeia: atravessar oceanos, explorar terras, devastar povos, tudo por algo que não se pode levar além da sepultura. “A terra que nos sustentou, sustentará também nossos filhos”, diz ele. Essa visão da terra como mãe, e da vida como comunhão com o todo, é uma crítica feroz ao individualismo moderno. E uma lição que muitos ainda precisam aprender.

O Evangelho de hoje também nos alerta: ninguém pode empurrar para Deus o que é responsabilidade sua. Jesus se recusa a ser árbitro da partilha da herança porque quer nos ensinar algo mais profundo: o problema não é jurídico, é moral. Quando há ganância, há ruptura dos laços, inclusive familiares. Quantas famílias se dilaceram em torno de heranças? Quantas relações se tornam guerra por aquilo que passa?

A morte é o espelho mais fiel da vida. Não é a lápide que dirá quem fomos, mas a marca que deixamos nos corações e na história. Por isso, ser rico para Deus é investir no que não perece: no amor, na justiça, na comunhão, na solidariedade. É fazer do trabalho uma expressão de sentido, não de alienação. É viver com intensidade, mas com leveza. É saber que tudo passa, só Deus permanece.

Em tempos de crises econômicas, degradação ambiental, exclusão social e idolatria do mercado, a Palavra de Deus nos grita com urgência: voltemos ao essencial. A vida não está nos celeiros abarrotados, mas no pão partilhado. A alegria não está na conta bancária, mas na serenidade de quem confia em Deus. A glória não está no aplauso, mas na coerência de uma vida entregue.

Que o Espírito Santo nos conceda sabedoria para discernir o que vale mais. E que, como o velho sábio Tupinambá, saibamos olhar a vida com simplicidade e profundidade. Pois, de verdade, tudo passa… só Deus permanece.