Política e Resenha

ARTIGO – Sem Deus, a Vida Perde o Sentido: A Visão de Ariano Suassuna

 

(Padre Carlos)

“Então Deus tá bem uma necessidade”. Essa frase, que parece saída de um sertão em chamas e de uma alma em busca, encerra em si a síntese de uma angústia humana ancestral. Ariano Suassuna, homem de fé e cultura, não disfarçava sua crença, mas também não a reduzia a dogmas de catecismo. Para ele, Deus era menos uma fórmula religiosa e mais um respiro de sentido diante do absurdo da existência. Dizia: “Ou existe Deus ou então a vida não tem sentido nenhum.”

A afirmação não é uma fuga emocional, como alguns apressados poderiam interpretar, mas um ato filosófico, existencial, quase desesperado — como quem olha o mundo e só enxerga tragédia, desigualdade, morte e dor. A ausência de Deus seria, então, a negação do próprio sentido de ser.

No coração dessa inquietação está a velha pergunta que atravessa as eras: por que sofremos? O poeta e o místico, o filósofo e o pobre, todos, em algum momento, encaram essa questão diante da cova aberta ou da injustiça que grita. Por que a criança morre antes de falar? Por que a mãe sepulta o filho? Que economia metafísica é essa em que se morre para quitar uma dívida que não se lembra de ter contraído?

Ariano parece ecoar, ainda que de forma velada, o mesmo espírito de Ferreira Gullar, quando este escreveu: “A arte existe porque a vida não basta”. Suassuna inverte e amplia: Deus existe porque a vida — assim como ela se apresenta, tão dura e desalmada — não basta. É preciso uma razão maior, um sopro de transcendência, algo que resgate o humano do mero biológico.

Ao dizer que perguntaria a Deus por que Ele não dorme, não come e vive satisfeito, Suassuna não está zombando da divindade. Ele está, como Jó, reivindicando uma conversa honesta com o Criador. Está fazendo teologia a partir da dor. Está propondo um diálogo em que Deus seja mais que um conceito e se torne interlocutor dos desvalidos.

E quando pergunta: “Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?” — aí está toda a nossa tragédia: a vida parecia receita de festa, mas virou banquete de lágrimas. E, nesse cenário, Deus é, sim, uma necessidade. Não como muleta, mas como eixo. Como possibilidade de sentido. Como ponto de fuga de um mundo que, sozinho, não se basta.

Essa visão teológica-popular-poética carrega uma força tremenda. Porque não nasce dos tratados acadêmicos, mas da alma nordestina, do barro do chão rachado, da lida com a morte diária. É uma teologia da sobrevivência, da poesia e da esperança.

Sim, Deus é uma necessidade — sobretudo quando tudo parece não fazer sentido. Mas talvez mais que isso: Deus é o que ainda nos resta quando já não resta mais nada.